AVENIDA PARANÁ
PUBLICAÇÃO
domingo, 13 de março de 2016
por Paulo Briguet 
Brava gente londrinense
Às vezes acho que as coisas mais importantes da vida, alegres ou tristes, acontecem no domingo. A Ressurreição, por exemplo.
Na manhã de ontem, pensei que seria maravilhoso se 50 mil londrinenses fossem à manifestação contra o PT. Mas eu estava sendo muito pessimista. No final da tarde, as estimativas oscilavam entre 72 mil e 90 mil pessoas nas ruas da cidade. Isso quer dizer que tivemos não só a maior manifestação de rua da história de Londrina como também, em termos proporcionais, o maior protesto de 13 de março em todo o Brasil. Mais uma vez, o povo londrinense deu uma lição de coragem e civismo.
Durante todo o percurso, do Colégio Vicente Rijo até a Praça da Bandeira, o clima foi de paz, congraçamento e alegria. Só mesmo a mão de Deus -- e a Mãe de Deus -- para explicar que o deslocamento de uma tal multidão ocorra sem um só incidente, um só empurrão, uma só vidraça quebrada, um só momento de tensão.
Sim, as pessoas estão indignadas com a corrupção e a impunidade, não apenas no PT, mas em qualquer legenda partidária. As pessoas gritam "Fora PT, leve a Dilma com você" e "Somos todos Sergio Moro", mas o fazem sem ódio ou ressentimento. Querem apenas reconstruir o que foi devastado pelos atuais ocupantes do poder. Querem um país melhor para seus filhos e netos. Querem trabalhar e ser felizes. É pedir demais? É pedir o impossível? É pedir algum absurdo?
Em certo momento, vi um grupo de crianças se refrescando no chafariz da Avenida Paraná, onde antigamente havia o coreto. Pois foi exatamente ali que eu assisti a um comício do então candidato presidencial Luiz Inácio Lula da Silva em 1989. Eu pensava nessa triste cena quando percebi que a passeata de ontem não foi feita só pelos cidadãos do presente. Dela também participaram os habitantes do passado e os habitantes do futuro: aqueles que construíram Londrina e o Norte do Paraná, bem como aqueles que são muito pequenos ou ainda nem nasceram para protestar conosco.
Por um momento, fechei os olhos no meio da multidão e pensei em Dr. Hosken, Willie Davids, David Dequêch, Délio César, Madre Leônia, Dom Geraldo, Irmã Norberta, Zaqueu de Melo, Álvaro Godoy, Mané Jacinto, George Craig Smith, Eugênio Brugin, Afonso Haikal -- e até naquele caboclo que vivia no meio da floresta depois de vinte malárias.
Ontem, meus amigos, vocês foram dignos de todos eles. Brava é a gente londrinense.
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