AVENIDA PARANÁ
PUBLICAÇÃO
domingo, 06 de março de 2016
Por Paulo Briguet 
Até quando?
O escritor Lúcio Cardoso, autor de "Crônica da Casa Assassinada", costumava desaparecer por longos períodos. Após um dos sumiços do amigo, a também escritora Rachel de Queiroz lhe perguntou:
Por onde você esteve, Lúcio?
Estive no inferno.
No final da semana passada eu pensei na resposta de Lúcio Cardoso ao ver e ouvir na TV o pronunciamento do mais famoso político brasileiro. Em sua entrevista coletiva, Lula usou um símbolo bíblico para referir-se a si mesmo: uma serpente. Mais especificamente, a jararaca ela que, como todos sabem, é uma das cobras mais venenosas do Brasil e da América do Sul.
Então eu me lembrei que o Santuário de Schoenstatt, a Capelinha do Colégio Mãe de Deus, chama-se na verdade Santuário Mãe Esmagadora da Serpente. No dia 25 de abril de 1948, o padre alemão José Kentenich (1885-1968), fundador da Obra de Schoenstatt, esteve em Londrina para o lançamento da pedra fundamental do Santuário e explicou que a Esmagadora da Serpente é a Mãe de Deus, a mulher vestida de Sol que esmaga a cabeça do Mal, unindo duas imagens poderosas que aparecem no começo e no fim da Bíblia, nos livros do Gênesis e do Apocalipse.
As palavras do Padre Kentenich, pronunciadas há quase 70 anos em nossa cidade, têm uma atualidade espantosa para o Brasil: "O grande sinal no céu, a Esmagadora da Serpente, quer se estabelecer aqui para lutar e vencer o demônio, para que Cristo reine e governe em toda a parte nas almas, nas famílias e na alma dos povos". É importante lembrar que o religioso alemão pouco antes conseguira sobreviver ao campo de concentração de Dachau. Kentenich esteve no inferno e voltou para anunciar o Céu.
No mesmo dia em que Lula comparou-se à jararaca, uma deputada comunista, "de cuyo nombre no quiero acordarme", gravou um depoimento em solidariedade ao ex-presidente. Eis que Lula, ao fundo do mesmo vídeo, solta uma frase impublicável.
No preciso momento em que ouvi a frase ao fundo, voltei a me perguntar se o fato de ter boa memória é uma bênção ou um tormento. Lembrei-me, então, da mesmíssima deputada a defender o regime de Stálin, responsável por 20 milhões de mortos, numa propaganda partidária dos anos 90; e também de sua fervorosa defesa da legalização do aborto. Quanto a Lula, voltei a me lembrar do seu comício na Avenida Paraná, em 1989. Sim, estive no inferno.
Por fim, a minha impiedosa memória buscou as palavras do cônsul romano Marco Túlio Cícero, proferidas em 8 de novembro do ano 63 antes de Cristo, e também de uma atualidade assustadora: "Até quando, Catilina, abusarás de nossa paciência? Quanto zombará de nós ainda esse teu atrevimento? Onde vai dar a tua desenfreada insolência?"
Ainda não temos resposta para suas perguntas, meu caro Cícero. Só podemos repetir o que Lúcio Cardoso disse a Rachel de Queiroz.
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