Rio, 14 (AE) - O auxiliar de enfermagem Edson Izidoro Guimarães, suspeito da morte de mais de 130 pacientes no Hospital Salgado Filho, disse hoje estar sendo ameaçado de morte por Geraldo Magelo Monge, dono da Funerária Frei Rogério. De acordo com denúncias de parentes das supostas vítimas, a empresa estaria envolvida no esquema. Guimarães confessou ter matado cinco pessoas e que receberia das funerárias.
"Estou com medo de morrer", disse Guimarães a quatro deputados federais que integram a Comissão de Direitos Humanos da Câmara e foram entrevistá-lo na Divisão de Capturas-Polinter, onde está preso. O auxiliar de enfermagem contou como funcionava o esquema e negou o tráfico de órgãos.
A delegada Marta Cavallieri, responsável pelo inquérito, informou que um fax sem remetente foi enviado hoje à Chefia de Polícia Civil comunicando que Guimarães estava sendo ameaçado por Monge. O delegado titular da Polinter, Cláudio Nascimento, assegurou à delegada que o auxiliar de enfermagem estava protegido. Guimarães está em uma cela com outros 15 presos que correm risco em contato com outros detentos por serem acusados de estupro e de integrar grupos de extermínio.
Os deputados federais Carlos Santana (PT/RJ), Jair Bolsonaro (PPB/RJ), Laura Carneiro (PFL/RJ) e Luiz Sérgio Nóbrega (PT/RJ) foram designados pela Comissão de Direitos Humanos para acompanhar as investigações. Eles conversaram com Guimarães durante quase uma hora hoje pela manhã.
Seguro - O auxiliar de enfermagem contou ter entrado no esquema das funerárias há dois meses e admitiu que receberia R$ 100,00 por cada corpo das pessoas que matou, mas não chegou a receber o dinheiro. Foi preso antes. "Sou peixe pequeno", disse aos deputados. "Muitos ficaram ricos."
Guimarães revelou que as funerárias preferiam corpos de pessoas que tivessem sido vítimas de acidentes de trânsito porque, assim, poderiam intermediar o saque do seguro obrigatório pago nesses casos, de R$ 5.000.
A delegada Marta Cavallieri está investigando também a possibilidade de haver um esquema de fraudes nos atestados de óbito dos pacientes mortos de causas naturais. Com a conivência de funcionários do hospital e de funerárias, o atestado de óbito seria adulterado, apontando como causa morte um acidente, para que o seguro pudesse ser sacado.
àrgãos - "O que nos deixou preocupados nessa história da preferência por vítimas de acidente é que isso pode ser uma pista para o tráfico de órgãos", afirmou a deputada Laura Carneiro. "Em um acidente, é muito mais fácil roubar um órgão sem que alguém perceba." Guimarães, no entanto, negou a existência de um esquema de comercialização de órgãos dentro do Salgado Filho. Disse apenas que uma funcionária do Banco de Olhos trabalha no hospital.
Guimarães insistiu que os funcionários das funerárias circulavam livremente pelo hospital e citou o nome de duas outras pessoas envolvidas na "máfia das funerárias": Almir, que seria o chefe do necrotério, e Chicão Gordo, um ex-funcionário do hospital que virou dono de funerária.
CPI - "Se conseguirmos reunir dados nacionais sobre a máfia das funerárias e a comercialização de órgãos podemos até pedir a abertura de uma Comissão Parlamentar de Inquérito", afirmou o deputado Carlos Santana. Segundo o deputado, os principais objetivos da subcomissão, criada no último dia 11, são determinar se as irregularidades vêm ocorrendo em outros Estados e propor uma mudança na legislação que trata do assunto.
Cerca de 50 parentes de supostas vítimas de Guimarães formaram hoje uma associação. Na próxima semana, o advogado Carlos França entrará com uma ação conjunta de reparação de danos contra o município.

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