Pristina, 23 (AE-AP) - Ministros do Exterior e da Defesa da Europa Ocidental se emocionaram nesta quarta-feira (23) diante de evidências de supostas atrocidades em Kosovo e imploraram ao povo da tumultuada região para não promoverem revanche pelos horrores.
Também hoje, fuzileiros navais dos Estados Unidos mataram uma pessoa e feriram outras duas depois que o posto de controle onde estavam foi atacado a tiros.
Os ministros da Grã-Bretanha, França, Itália e Alemanha, as mais altas autoridades ocidentais a entrar em Kosovo desde o início de uma missão de paz liderada pela Otan em 12 junho, inspecionaram supostos locais de atrocidades, visitaram cidades tensas, e avaliaram o progresso da missão, que aumentou para 19.000 efetivos.
O ministro do Exterior britânico Robin Cook colocou roupas de proteção brancas e uma mascara enquanto passava por edificações em fazendas em Velika Krusa, onde várias dezenas de albaneses étnicos teriam sido mortos a tiros antes de as estruturas serem incendiadas.
"Isto é apavorante", disse Cook. "Eles deviam saber o que viria. Entendemos plenamente as emoções, a mágoa que tais massacres e tais atrocidades devem causar a todos aqueles que perderam parentes nesses eventos e que sobreviveram a eles", afirmou Cook mais tarde em entrevista coletiva com seus colegas em Pristina.
Mas "pedimos àqueles que sobreviveram a tais atrocidades para deixar que as autoridades judiciais e a polícia cumpram a tarefa de fazer justiça por aqueles que morreram e nos deixar, aqui em Kosovo, quebrar o ciclo de violência e construir um futuro pacífico, não-violento pelo futuro das crianças de todas as comunidades de Kosovo", disse.
O ciclo de vingança prosseguiu em vários pontos de Kosovo nesta quarta-feira, como em Novake, uma vila sérvia de cerca de 50 casas que albaneses étnicos incendiaram - um dia depois de tê-las saqueado. "Eles queimaram nossas casas, nós queimamos as deles", afirmou Shpetim Shijaku, um albanês de 10 anos de uma vila vizinha que veio para pegar o que os sérvios tinham deixado para trás quando partiram.
Marines dos Estados Unidos guardando um posto de controle no sudeste de Kosovo foram atacados a tiros na noite de hoje por pessoas não identificadas. Os fuzileiros navais responderam ao fogo, matando pelo menos uma pessoa, informou o general-brigadeiro John Craddock numa entrevista em seu quartel-general de Kosovo no Pentágono.
Os marines chamaram helicópteros de ataque, e os assaltantes, armados com fuzis AK-47 se renderam. Não ficou imediatamente claro se eles eram sérvios ou albaneses étnicos. Nenhum fuzileiro naval foi ferido.
Na cidade nortista de Kosovska Mitrovica, onde soldados de paz franceses têm tentado controlar as tensões entre sérvios e albaneses étnicos, o ministro de Defesa francês Alain Richard defendeu o comportamento de seus soldados.
Albaneses étnicos da cidade têm reclamado que os franceses estavam dando tratamento preferencial aos sérvios. Soldados de paz franceses apenas observavam na terça-feira enquanto sérvios ameaçavam algumas pessoas esperando para cruzar uma ponte para o lado da cidade onde ficam o principal hospital, muitas casas albanesas e particamente as únicas lojas de alimentos abertas. Os soldados franceses estavam simplesmente tentando permitir que todos os moradores de Kosovo "vivam em segurança", disse Richard em defesa de seus soldados.
O ministro do Exterior francês, Hubert Vedrine, afirmou numa entrevista coletiva conjunta com Cook: "O setor... é um setor muito difícil. Posso dizer a vocês que as forças francesas na área irão aplicar as mesmas regras e agir da mesma forma que o resto (da força de paz) age no resto de Kosovo."
Também estavam hoje em Kosovo o ministro do Exterior alemão Joschka Fischer, o ministro da Defesa da Alemanha, Rudolf Scharping, e o chanceler italiano Lamberto Dini.
As construções em Velika Krusa que Cook visitou são uns dos supostos locais de massacres citados pelo tribunal de guerra internacional no indiciamento do presidente Slobodan Milosevic. Cook prometeu que "não vamos desistir" de buscar a prisão de Milosevic.
A guerra de 78 dias da Otan contra a Iugoslávia, o acordo de paz sob o qual tropas iugoslavas se retiraram de Kosovo e a fuga dos sérvios temendo ataques revanchistas de albaneses têm colocado Milosevic sob pressão em Belgrado. Um alto assessor sugeriu hoje que haverá uma repressão por parte do líder autoritário.
Também hoje, o ministro da Defesa russo, Igor Sergeyev, disse que soldados de paz da Rússia poderão se unir às forças da Otan em Kosovo já na sexta-feira. Sergeyev afirmou que as tropas estarão prontas para partir em três horas uma vez que a câmara alta do parlamento russo aprovar um plano de manutenção da paz. A casa começará a considerar o plano na manhã de sexta-feira.
O plano da Rússia considera o envio de 3.600 soldados a Kosovo
como acertado durante conversações com autoridades norte-americanas na última semana. As tropas irão servir sob um comando russo, mas trabalharão com comandantes da Otan nos setores de Kosovo controlados pelos Estados Unidos, França e Alemanha.
Enquanto isto, refugiados albaneses étnicos continuam a ignorar avisos sobre minas terrestres e estão voltando para a província num ritmo alarmante - 207.000 apenas nos últimos oito dias, segundo o Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (Acnur).
A ONU estima que cerca de 860.000 albaneses étnicos fugiram ou foram expulsos de Kosovo por forças sérvias depois que a Otan deu início em 24 de março a uma campanha de bombardeio para forçar a Iugoslávia a aceitar um plano de paz para a província.

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