Autoridades acertam parceria para investigar crime no PI
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segunda-feira, 11 de outubro de 1999
Por Cláudio Barros (especial para a AE) 
Teresina, 11 (AE) - A Procuradoria da República, a Polícia Federal (PF), o Ministério Público (MP) e a Secretaria da Segurança Pública do Piauí acertaram uma parceria para as investigações sobre o crime organizado no Estado. O acordo foi acertado hoje, durante três horas de reunião entre o procurador-geral da República, Geraldo Brindeiro, o governador Francisco Moraes Souza, o Mão Santa (PMDB), o presidente do Tribunal de Justiça (TJ) do Piauí, desembargador Falcão Lopes, dirigentes da PF e da Secretaria de Segurança Pública.
A Procuradoria da República e a PF vão investigar as ameaças a autoridades federais, desvio de verbas de programas de saúde e educação, sonegação de tributos federais e contrabando e armas.
"Vamos investigar esses crimes, que são federais, porque estamos querendo é buscar uma cooperação com o governo do Estado no sentido de apurar com rigor todos os crimes", disse Brindeiro.
O governador anunciou que, além da prisão do coronel Viriato Correia Lima, acusado de ser o chefe do crime organizado no Estado, outras medidas serão adotadas esta semana. Hoje, o secretário dee Segurança, Carlos Lobo, reuniu-se com todos os delegados de polícia e nomeou o delegado Francisco Costa para comandar a equipe que investigará assassinatos, extorsão e falsificação de notas fiscais.
Outra decisão tomada na reunião será o pedido para desarquivar pelo menos dez processos criminais envolvendo assassinatos não- solucionados.
Há indícios de que os crimes foram cometidos pelo bando liderado por Lima. Entre esses crimes, está o assassinato do delegado Francisco Arias, em 1989, morto em frente da Secretaria de Segurança, quando saía para prender Lima, principal suspeito de ser o mandante da morte de outro policial civil, Leandro Safanelli. Arias foi assassinado pelo soldado Francisco Moreira do Nascimento, que está preso no mesmo quartel em que Lima cumpre "prisão administrativa" desde quinta-feira (07).
Nascimento foi julgado em 1998, nove anos depois do crime, e absolvido por unanimidade, mesmo havendo provas de ter assassinado o delegado com um tiro nas costas. O promotor do caso era João Benigno Filho, suspeito de envolvimento com o crime organizado e suspenso das funções. O juiz que presidiu o julgamento, Orlando Pinheiro, também está arrolado no dossiê do crime organizado, sob suspeita de receber propinas do grupo de Lima.
Hoje, ao deixar a reunião com Brindeiro e Mão Santa, o desembargador Augusto Falcão, presidente do TJ, informou que os dois juízes citados no dossiê, Pinheiro e Francisco das Chagas Moreira, serão notificados a apresentar defesa prévia em dez ou 15 dias. Só depois disso é que o Colégio de Desembargadores vai se reunir para decidir se eles serão afastados e submetidos a um inquérito.
O procurador geral da República deixou Teresina hoje mesmo, depois de se reunir com o chefe do MP, Antonio Linhares. Os dois acertaram os procedimentos a serem adotados nas investigações. Linhares deverá pedir a prisão provisória dos policiais civis citados no dossiê do crime organizado, entre os quais, o delegado Wilson Torres, segundo do bando de Lima e que, ontem (10), votou na eleição para escolha do presidente do Iate Clube, que reúne a alta sociedade de Teresina.
O crime organizado no Piauí pode ter ligações com o ex-deputado Hildebrando Pascoal (AC), cassado depois de reveladas as atividades criminosas. Brindeiro disse hoje que o assassinato no Piauí de José Hugo Filho, que matou um irmão de Pascoal, é o elo que faz a conexão entre os dois grupos criminosos.
Hugo Filho foi entregue por policiais militares do Piauí a homens de Pascoal, em 1998. Um tenente da PM, identificado apenas como Baltazar, hoje promovido a capitão, foi quem entregou o preso ao bando de Pascoal. Para isso, recebeu uma recompensa de R$ 50 mil. Hugo Filho foi morto com requintes de crueldade: serrado vivo e, depois, jogado em ácido, para dificultar a identificação.
O caso está sob investigação da PF há pelo menos um ano. O superintendente Robert Magalhães assegura que, agora, o inquérito será levado adiante para determinar o grau de ligação entre os dois bandos. As investigações deverão também estabelecer que tipo de relações existem entre policiais militares do Piauí, como o capitão Baltazar e os criminosos acreanos.
Brindeiro informou que crimes como o assassinato de Hugo Filho e outros homicídios ocorridos no Piauí foram levados ao conhecimento do Conselho de Defesa da Pessoa Humana. "Essa é uma situação preocupante e vim aqui ao Piauí para me familiarizar mais com o que está acontecendo no Estado; estaremos trabalhando juntos para preservar os direitos dos cidadãos e assegurar segurança às pessoas", disse.
O superintedente da PF anunciou que, a partir de quarta-feira, deverão ser abertos inquéritos na PF e na Polícia Civil contra os citados no dossiê do crime organizado. "Foram mais de oito meses de escuta telefônica autorizada pela Justiça Federal; agora, estamos entrando numa segunda fase, a dos inquéritos, que serão determinantes para se esclarecer cada um dos crimes cometidos", diz o superintendente, que espera para quarta-feira (13) a chegada de mais um delegado e agentes federais a Teresina.


