Campo Grande, 29 (AE) - A autonomia universitária e a busca de recursos no setor privado para expandir e diversificar o sistema público de ensino superior são tendências inevitáveis no mundo atual. A opinião é de especialistas estrangeiros que participaram hoje do seminário "Educação Superior e suas Tendências para o Século 21", promovido pela Universidade para o Desenvolvimento do Estado e da Região do Pantanal (Uniderp), em Campo Grande. De acordo com o diretor de Investigação da Associação Internacional das Universidades, Guy Neave, os últimos 20 anos foram marcados, na Europa, pela crescente autonomia das instituições.
Isso pôs fim a uma série de limitações burocráticas, como a necessidade de obter o aval do governo para contratar professores. Mais do que isso, modificou o papel do Estado: de controlador direto das universidades para supervisor do ensino. Em países como a Grã-Bretanha e a França, a autonomia foi acompanhada da diminuição do investimento estatal. Em 1981, segundo Neave, 85% do orçamento das universidades era público, índice que caiu para 63% hoje. Na França, a parcela financiada pelo Estado era de 95%, nos anos 80, e está na faixa de 80%. "Só no começo dos anos 80 as universidades francesas foram autorizadas a firmar parcerias ou convênios com as empresas", disse Neave.
Ele e o diretor da Associação das Universidades Européias, Alberto Amaral, defenderam a interação da iniciativa privada com as instituições de ensino superior, incluindo até mesmo as doações a fundo perdido, prática comum nos Estados Unidos. "Ter a população educada traz benefícios sociais como a redução da criminalidade", afirmou Amaral. "O setor privado deve contribuir", concordou Neave, explicando que a massificação do ensino superior na Europa ocorreu com dinheiro público na década de 60.
Segundo Neave, a redução da população com idade para estar matriculada na universidade tem levado os governos a destinar menos recursos para o ensino superior. Assim, a busca por outras fontes de financiamentos já permite que instituições como a London School of Economics garantam 90% de seu orçamento com outras fontes que não o poder público. Os dois observaram que o Estado não pode abrir mão da regulação do sistema, sob pena de serem praticadas injustiças. "Deixar o controle nas mãos do mercado não é viável", argumentou Amaral. De acordo com ele, mesmo nos Estados Unidos o governo não abre mão do papel regulador. "As políticas de cotas para as minorias são exemplo disso", afirmou. Bolsas - O professor da Universidade do Kansas, nos Estados Unidos, Christopher Morphew, contou que a instituição onde leciona assinou contrato com a Coca-Cola, de modo que as lanchonetes do câmpus vendem apenas essa marca de bebida. "Em troca, recebemos bolsas para os estudantes e material esportivo para os atletas", disse Morphew. "Não sei se isso é bom, mas o dinheiro tem de sair de algum lugar".

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