Aumentos terão impacto de 1,2 ponto na inflação, prevê BC
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terça-feira, 29 de junho de 1999
Por Ribamar Oliveira 
Brasília, 30 (AE) - Os últimos aumentos das tarifas de telefone, energia elétrica e dos preços dos combustíveis terão um impacto sobre a inflação no terceiro trimestre deste ano (julho/setembro) da ordem de 1,2 ponto porcentual, de acordo com estimativa divulgada hoje pelo Banco Central no seu primeiro Relatório de Inflação. Essa previsão, considerada "conservadora" pelo próprio BC, leva em conta os efeitos diretos e indiretos dos aumentos das tarifas públicas. O Banco Central acredita, no entanto, que parte do impacto dos aumentos das tarifas públicas e dos combustíveis já foi embutido nos preços no segundo trimestre deste ano. O BC garante que esse repique inflacionário no terceiro trimestre não será permanente. "Esse movimento não se propagará nem será persistente, ou seja, não alterará de forma permanente a trajetória descendente da inflação", diz o Relatório.
O cenário principal, traçado pelo Banco Central, para a trajetória da inflação deste ano, cuja meta é de 8%, já considera o "choque de oferta negativo" provocado pelos aumentos dos serviços públicos e dos combustíveis. Considera também um "choque de oferta positivo": a boa safra de verão.
De acordo com o BC, o impacto total do choque de oferta agrícola favorável proporcionou uma "redução imprevista" de cerca de um ponto porcentual na inflação ao consumidor do segundo trimestre deste ano. "O ótimo desempenho de lavouras importantes pelo peso de seus produtos nas cestas de consumo integrantes dos índices de preços, como soja, arroz e feijão, vem contribuindo decisivamente para reduzir a inflação corrente", diz o BC em seu relatório.
Outros dois eventos analisados na formulação do cenário principal foram a elevação da taxa de juros nos Estados Unidos e as incertezas sobre a percepção, por parte dos investidores internacionais, da evolução das economias emergentes. A meta de 8% para a inflação deste ano, com intervalo de 6% a 10%, já incorpora uma alta de 0,25 ponto porcentual na taxa de juros básica dos Estados Unidos, decretada ontem pelo Banco Central americano.
Mas o cenário definido pelo BC leva em consideração a possibilidade de novos aumentos da taxa de juros dos EUA ao longo do segundo semestre deste ano. Em relação aos países emergentes, o relatório do BC diz que "as incertezas associadas à percepção do desempenho econômico ao longo de 1999, têm impacto sobre o risco Brasil, e também foram adicionadas ao cenário principal".
A análise macroeconômica feita pelo Banco Central, ao definir a trajetória esperada da inflação, pressupõe que não existe excesso de demanda no atual cenário da economia brasileira. Essa avaliação é importante porque, como lembra o BC no relatório, quando a demanda agregada força a economia a operar perto dos limites de sua capacidade produtiva, surgem pressões inflacionárias.
Na perspectiva da nova política de metas para a inflação
a política monetária (taxa de juros e crédito) deve ser calibrada para manter a demanda em níveis compatíveis com o aumento da capacidade produtiva.
Por enquanto, o BC conclui que "o produto efetivo ainda se encontra bem abaixo do produto potencialmente atingível com a capacidade instalada".E, portanto, não há sinais de pressões do lado da demanda.
Juros - O Relatório de Inflação divulgado hoje pelo BC, com 97 páginas, analisa a produção industrial, o comércio, a agricultura, o nível de emprego, os salários e os rendimentos dos trabalhadores.Estuda o comportamento dos preços e as expectativa do mercado em relação à inflação. Analisa ainda a política monetária, o crédito, as taxas de juros, o mercado financeiro, a política fiscal, a evolução do déficit nominal e do superávit primário das contas públicas e a conjuntura internacional.
O BC informa que "caso as incertezas mais prementes" dissipem-se antes da próxima reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), marcada para o dia 28 de julho, "a taxa de juros poderá ser reduzida". Essas incertezas estão relacionadas principalmente aos países emergentes. "A economia internacional é, neste momento, a principal fonte de incertezas na determinação das taxas futuras da inflação doméstica", diz o Banco Central.
O relatório afirma que a economia brasileira tem apresentado desempenho significativamente superior ao esperado no início do ano.
Inicialmente previa-se uma redução do Produto Interno Bruto (PIB) de 3,8% em 1999 e essa estimativa foi revista para uma queda de 1%. O BC diz que "não seria inusitada" uma nova revisão das projeções de crescimento da economia brasileira. Informa que o mercado de trabalho permanece apresentando tendência de demissão no setor industrial. Nota que as perspectivas quanto à evolução do emprego e dos salários e rendimentos não apontam para a expansão no nível de demanda que possa ser traduzida em pressão sobre preços.
A análise feita pelo Banco Central mostra que as economias da área do euro apresentam "sinais de recuperação" e diz que os dados indicam que há grande possibilidade do governo japonês ser bem sucedido em reverter a estagnação daquela economia. Na avaliação que faz do setor externo, o BC diz que a resposta das exportações brasileiras à desvalorização cambial tende a apresentar maior defasagem que a das importações em função da necessidade de redirecionamento da produção do mercado interno para o externo.


