Washington, 19 (AE) - O aumento de 0,4% do Índice de Preços ao Consumidor (CPI) em setembro, anunciado hoje (19), ficou dentro das previsões e foi recebido com alívio pelo mercado. A ausência de surpresas animou os investidores e o índice Dow Jones da Bolsa de Nova York, composto por trinta ações de grandes corporações industriais, recuperou parte da forte perda que sofreu na semana passada.
O fato de o CPI não ter confirmado a péssima notícia embutida no salto inesperado de 1,1% que o Índice de Preços ao Produtor (PPI) em setembro, divulgado na semana passada, não significa que o Fed deixará de aumentar os juros na próxima reunião de seu foro de política monetária, no dia 16 de novembro - o temor que levou o mercado a cair mais de 10% em relação a seu ponto mais alto, em julho.
No mercado de bônus, por exemplo, alguns operadores já criticam o Fed por ter deixado passar a chance de elevar a taxa de juros em mais 0,25% - para 5,5% - em sua última reunião, há duas semanas. Para Charles Parkhurst, do banco de investimentos Salomon Smith Barney, a decisão do Fed de deixar a taxa inalterada e se limitado a adotar um viés de alta da política monetária "parece ter sido um erro", pois manteve uma expectativa de alta que tem alimentado a volatilidade do mercado. Com a economia em seu nono ano de expansão e operando a pleno emprego e praticamente sem capacidade ociosa, poucos analistas duvidam de que o Fed deixará de fazer o que os investidores já anteciparam, ajustando os juros mais uma vez este ano - a terceira, desde junho.
O CPI de setembro, que registrou o maior aumento da principal medida da inflação americana em cinco meses, continuará também a alimentar a discussão entre economistas sobre a fenomenal estabilidade dos preços que os EUA exibiram nos últimos dois anos, ao lado de taxas espetaculares de crescimento, em torno de 4% ao ano, para um país industrializado. A teoria diz que quando o desemprego cai abaixo de 5% , os empregadores começam a competir por mão de obra, oferecem melhores salários e isso cria pressões inflacionárias.
Como explicar, então, que, com o desemprego nos EUA em seu ponto mais baixo em três décadas há mais de um ano, a inflação não tenha levantado a cabeça? Greenspan, que já avisou que apertará os juros ao menor sinal de inflação, disse nos últimos meses que uma parte da resposta está nos ganhos de produtividade propiciados pela integração das novas tecnologias na economia.
Sem contestar essa tese, Roger E. Brinner, o economista-chefe do Parthenon Group, oferece uma outra explicação. Para ele, trata-se, também, de uma questão de boa sorte. "A inflação não está morta", escreveu o economista recentemente em The New England Economic Review.
O salário nominal dos trabalhadores permaneceu estável, mas o salário real aumentou rapidamente a partir de 1996, como já ocorrera em décadas passadas, sustenta Brinner.
Se este é o caso, porque então a inflação não se manifestou? A resposta, segundo o economista, é que os americanos foram beneficiados pela feliz coincidência de vários "choques de oferta". Os preços do petróleo, que haviam subido entre 1990 e 1996, diminuíram em 1997 e desabaram no ano passado. A valorização cambial do dólar, por outro lado, reduziu os preços de produtos importados, cortou os custos de componentes para a indústria e o setor de serviços e aumentou a pressão competitiva entre os produtores nos EUA. A subida espetacular do mercado acionário também ajudou, pois reduziu os custos de pensões para os empregadores. Além disso, houve também uma redução da inflação dos custos com cuidados de saúde.
Agora, com o petróleo em alta, o dólar e a bolsa em baixa e os custos com saúde novamente apontados para cima, a tese de Brinner pode já estar sendo comprovada. Segundo ele, a boa sorte dos últimos anos "não prenuncia uma nova economia, destinada para sempre a ter crescimento alto e inflação baixa". O mercado parece já ter se convencido disso. Segundo os analistas, os juros dos papéis longos do Tesouro americano já embutem uma inflação anual de 3%, o que compara com 2,3% de inflação nos últimos doze meses e está nada menos do que 1,1% acima da variação do CPI no ano passado.

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