Aumento de exportações pressiona preços internos e pode gerar inflação
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terça-feira, 19 de outubro de 1999
Por Irany Tereza 
Rio, 20 (AE) - A alta nos preços por atacado, que vem elevando os índices de inflação, ocorre ao mesmo tempo em que a exportação de produtos agropecuários vem registrando boas elevações. Um dos casos mais expressivos é o do açúcar, que teve crescimento de 52,1% no volume exportado no primeiro semestre do ano, segundo dados da Fundação Centro de Estudos do Comércio Exterior (Funcex). Entre setembro e outubo, o preço do produto no atacado, que vinha mantendo a estabilidade no mercado interno
deu um salto de 20,15%, "uma barbaridade", na opinião dos técnicos, que contribuiu bastante para pressionar a inflação.
Ainda não foi encontrada explicação para o aumento, que não está ligado a questões sazonais. "A preferência pela exportação, por causa do ganho maior, pode vir a puxar os preços internos, elevando a inflação, mas ainda não sabemos se isto está de fato ocorrendo", comenta o chefe do Centro de Estudos de Preços da FGV, Paulo Sidney Cota. A carne bovina e o frango são dois outros produtos que tiveram uma alta taxa de crescimento no volume exportado e, coincidentemente, alta de preços interna.
O item abate de animais, segundo dados da Funcex, teve aumento de 28,7% em quantidade de vendas externas. No acumulado do ano até setembro, a carne bovina já registra aumento de 19,8% nos preços dos atacadistas, que estão sendo repassados, no varejo, para os consumidores. O presidente do Sindicato da Indústria de Frios de São Paulo, Hélio Toledo, nega, porém que esteja sendo dada preferência ao mercado externo, o que poderia puxar os preços domésticos. "Em cada carcaça de boi de 255 quilos, no máximo 30 quilos vão para outros mercados, ou seja, 70% são para o abastecimento interno", diz ele.
Toledo contesta o fato de os reajustes dos atacadistas estarem sendo muito superiores aos dos varejistas. Segundo ele, de 22 de setembro até hoje, a arroba do boi subiu 14,28%, passando de R$ 35 para R$ 40. Enquanto isso, no atacado a carne passou de R$ 2,90 para R$ 3,05 o quilo, um aumento de 5%. "A indústria não conseguiu repassar todo o aumento e está sendo muito comedida ao não fazer uma transferência maior para o varejo", defende-se o industrial.
Para o aumento da carne, os especialistas têm uma justificativa: a estiagem prolongada prejudicou a pecuária e reduziu a oferta do produto que, nesta época do ano, também costuma enfrentar problemas de entressafra. "Ainda não há evidências claras de que o aumento das exportações esteja ocorrendo às custas de prejuízo ao mercado doméstico, até porque o consumo interno está retraído", explica o economista da Funcex Fernando Ribeiro.
"Mas há possibilidades de que isto ocorra realmente, como na década passada, quando as vantagens maiores de exportação acarretaram falta de oferta interna", acrescenta. Em todo o caso, os levantamento estatísticos apontam que a maior absorção do aumento de custos está ocorrendo no varejo. Há uma espécie de "inflação retraída" com o não repasse de todo o aumento do atacado para o consumidor. No momento em que houver aquecimento da economia, o comércio deve repassar estas elevações e aí a inflação para o consumidor (que é a utilizada pelo governo em suas metas econômicas) pode disparar.
O presidente da Associação de Supermercados do Rio de Janeiro (Asserj), Aylton Fornari, diz que ainda não estão ocorrendo casos de redução de oferta decorrentes de um aumento das vendas internacionais, mas admite que os preços estão sendo empurrados pela comparação de ganho das exportações. "Não só o açúcar, mas o óleo de soja, o milho e outros gêneros estão acompanhando os preços conseguidos pelos produtores em suas vendas para outros mercados", diz Fornari. Ele lembra que nos últimos 60 dias o frango teve alta de 10% a 12% no atacado e mais da metade desse aumento já foi repassado ao consumidor, que terá de arcar, nas próximas semanas, com novos reajustes.
"Há um problema difícil de ser resolvido", comenta Paulo Sidney Cota. "O governo precisa incentivar o aumento das exportações para fechar positivamente as contas públicas, mas este incremento pode também acabar trazendo de volta a pressão inflacionária."


