São Paulo, 27 (AE) - Só os transformadores de copos descartáveis instalados em Criciúma (SC) consomem 60 mil toneladas (t) de poliestireno (PS) por ano. A região fica a 320 quilômetros do pólo petroquímico de Triunfo (RS), onde este mês começou a funcionar uma nova indústria de matérias-primas para a produção dessa resina termoplástica no Brasil. Em um ano de produçao, a nova oferta provocará a substituição de importações no valor de US$ 175 milhões ou R$ 315 milhões na conversão de hoje. Já as exportações terão um adicional de US$ 45 milhões ou R$ 80 milhões.
A projeção é feita por um executivo da Innova, Julián Zárate. A indústria, 100% controlada pela argentina Perez Companc, investiu o total de US$ 280 milhões na construção de um complexo petroquímico integrado, para produzir, a partir de setembro, 120 mil t/ano de poliestireno dos tipos cristal e alto impacto.
No ano passado, as indústrias brasileiras consumiram 260 mil toneladas de PS, das quais cerca de 100 t mil foram importadas - a Basf e a EDN têm capacidade para produzir as outras 160 mil t/ano. As compras foram feitas no Japão, na Tailândia, em Hong Kong e na Itália. "Do total vendido no Brasil, 17% vao para a Zona Franca de Manaus, que produz 95% dos itens da linha marrom", contabiliza o diretor comercial da Innova, Marcelo Bianchi. Este ano, diz Julián Zárate, o incremento de consumo deverá ser de 7%.
No ano passado, alguns transformadores brasileiros reclamaram a falta da resina no mercado interno. Nos Estados Unidos e na comunidade européia, 95% da capacidade instalada para a produção da resina está ocupada. A China, maior país consumidor da resina, compra 24% de tudo o que se produz no planeta.
Demanda interna - A intenção da Innova, porém, é atender
primeiro, à demanda interna, mas praticando preços iguais aos dos concorrentes e utilizando distribuidores - que oneram ainda mais o custo do produto. Para se ter idéia, na primeira quinzena de janeiro, quando a indústria praticou reajuste de 11% em média
havia distribuidoras cobrando dos pequenos transformadores até 22% a mais pelas resinas.
Enquanto apenas a indústria de monômero está em funcionamento, as exportações do produtos se dirigirão aos Estados Unidos, "porque a logística para lá é mais favorável", explica Marcelo Bianchi. Quanto ao PS, também será dada prioridade às exportações dos excedentes para países com acesso mais fácil.
Segundo a direção da Innova, as resinas podem ser usadas em qualquer lugar do mundo, pois a tecnologia para a produção do monômero é da ABB/Lummus, dominada em todo o planeta, e a do PS é da italiana ENI Chem. A Pasa, do grupo Pérez Companc, produz 65 mil t/ano de PS na Argentina, usa tecnologia diferente da unidade brasileira e as aplicações da resina são diferentes.
Integração - A integração significa que a Innova produz desde o etil-benzeno, passando pelo monômero de estireno até chegar ao seu produto final, o poliestireno, matéria-prima dos copos descartáveis. O início das operações do complexo aconteceu no ano passado, com a reativação de uma unidade de 190 mil t/ano de etil-benzeno, comprada da Petroflex, em meados da década. Em janeiro, foi a vez da fábrica de 180 mil t/ano de monômero de estireno, cujo insumo é o etil-benzeno, começar a funcionar. E, em setembro, entra em operação a indústria de 120 t/ano de PS cristal e de alto impacto.
A distribuição será feita por navios que saem do terminal Santa Clara, no próprio pólo, navegam pela Lagoa dos Patos até o porto de Rio Grande e dali seguem pela costa brasileira ou para o exterior. E também por ferrovias e rodovias. Grandes quantidades de remessas poderão ser enviadas em big-bags (saco de mil quilos), sacos de 25 quilos ou a granel.
Financiamento - Dos US$ 280 milhões investidos, US$ 5 milhões foram financiados pelo Banco Mundial e o International Finance Corporation (IFC), por meio de participação societária, US$ 80 milhões aportados por oito bancos europeus e americanos, coordenados pelo IFC, e os outros US$ 195 milhões são recursos próprios da Perez Companc.
Segundo o diretor superintendente da Innova, Flávio Augusto Lucena Barbosa, o investimento será amortizado em oito anos via retorno anual de 12% a 15% sobre o aporte total. "Em 2001, primeiro ano de funcionamento pleno de todas as unidades, a Innova deverá faturar US$ 220 milhões", calcula Flávio Barbosa.
Reestruturação - "Nos outros pólos não há disponibilidade de matéria-prima como há na Copesul", afirma o diretor superintendente. Isso sinaliza que a Perez Companc tem interesse na reestruturação do setor petroquímico brasileiro? A holding iniciou, agora, um rearranjo societário para abrir seu capital nos Estados Unidos, este ano", informa Flávio Barbosa.
Com isso, o conglomerado familiar passa a empresa aberta para investidores do mundo inteiro, já que até hoje só mantinha operações na Bolsa de Buenos Aires. Na próxima semana, executivos da Perez Companc vao apresentar a companhia e explicar suas operações à Bolsa de Nova Iorque. A empresa quer captar recursos para investir mais. Hoje, 60% das ações ordinárias estão sob controle da família Perez Companc
20% com fundos americanos e 20% nas maos de acionistas minoritários. O rearranjo societário consiste da troca de ações, a partir do próximo dia 24 (a operação nao foi detalhada pelo executivo da Innova).
De olho no refino E as refinarias brasileiras de petróleo, cuja intenção de venda foi anunciada esta semana pela Agência Nacional de Petróleo (ANP), têm "grandes chances" de fazer parte dos alvos de interesse para novos investimentos da Perez Companc, avalia o diretor superintendente da Innova. A holding controla, com a Repsol/YPF, duas refinarias argentinas. E, em parceria com a Petrobras, outras duas na Bolívia.
No Brasil, a refinaria mais próxima das operações do grupo é a Alberto Pasqualini (Refap), que abastece com nafta a Companhia Petroquímica do Sul (Copesul), central de matérias-primas do pólo de Triunfo. A Innova, aliás, surgiu como joint venture entre a Copesul, a Petroflex e a Perez Companc, no início da década. Em 1996, a Petroflex saiu do projeto - alegando que monômero e PS não mais faziam parte do seu core business -, e permaneceram a Perez e a Copesul, cada uma com 50% do controle acionário.
A necessidade de aumentar a capacidade instalada de 600 mil t/ano para mais de 1 milhao t/ano, com investimento de cerca de US$ 600 milhões, nos últimos três anos, fez com que a Copesul desistisse da parceria com a Perez. Amanhã, o presidente Fernando Henrique Cardoso vai inaugurar a nova fase da Copesul.
Ameaça - Há cerca de um mês, a Perez Companc ameaçou retirar-se da área de refino de petróleo argentina, porque o governo queria sobretaxar a nafta, assim como faz com a gasolina. Foi só uma ameaça. No Brasil, o monopólio da produção, importação e refino do petróleo nas mãos da Petrobras faz com que a formação de preços pelo governo e custos das refinarias sejam repassados às centrais. E, dali, para as indústrias de resinas termoplásticas até chegar aos transformadores. Estes, nem sempre conseguem cobrar os aumentos do consumidor final.
No ano passado, por exemplo, os produtores de bens intermediários e finais plásticos suportaram reajuste de até 110% da matéria-prima, e dizem que, pressionados pelo varejo, puderam repassar o máximo de 35% dos novos custos.
Construção - O investimento fixo com projeto, equipamentos, montagem e construção civil foi de US$ 160 milhões. "Desse total, US$ 15 milhões foram gastos nas obras", afirma Flávio Barbosa. As construções do laboratório onde são analisadas amostras de cada partida da produção e os clientes poderão saber como aplicar a matéria-prima PS, do depósito de 8 mil metros quadrados com capacidade para estocar 10 mil toneladas de resinas (produçao de um mês) e a fábrica que abriga duas linhas de produção de PS foram feitas de pré-moldados de concreto, reduzindo em 30% o tempo da obra. A construção dessa última parte deixa transparecer que a obra é como um jogo de encaixe, um lego em dimensões gigantescas.
Durante o pico da construção foram empregadas 1.400 pessoas. Hoje, na finalização, 800 operários trabalham sob o sol de verão de Triunfo. O tempo quente faz com que a estação de resfriamento de água que mantém a temperatura interna da indústria de monômero não pare de funcionar um segundo. Por meio de dutos, a água a uma temperatura de 36ºC chega à estação, onde é resfriada sob ventiladores industriais instalados no topo do prédio. Da área de resfriamento, a água cai como em cascatas a temperatura de 26ºC para ser reutilizada no resfriamento dos equipamentos internos da fábrica de monômero.

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