Curitiba- A.A.D., uma adolescente de 16 anos, acabou de dar à luz a uma menina de três quilos e 285 gramas, no Hospital de Clínicas (HC), em Curitiba. Ela quer terminar o ensino médio, arrumar um emprego e curtir o casamento ainda recente. ''Não vai mudar nada'', afirmou ela, um pouco tímida, mas segura de seus planos. A.A.D. ajudou a engrossar as estatísticas da gravidez precoce no Brasil. No entanto, pode ser considerada uma exceção entre as adolescentes gestantes ou mães que, em geral, abandonam seus projetos de vida quando os têm depois de uma gravidez não planejada.
Segundo estatísticas do Ministério da Saúde, de cada 100 mulheres que dão à luz no Brasil, 28 são menores de 18 anos. O HC, em Curitiba atende uma média mensal de 450 partos e cesárias entre adolescentes. Ainda de acordo com levantamento do Ministério da Saúde, entre 1993 e 1999 (único dado disponível), houve um aumento de 30% no número de partos entre adolescentes na faixa dos dez aos 14 anos.
Para o médico ginecologista de Belo Horizonte (MG), João Tadeu Reis, que participa como conferencista no 8º Congresso Brasileiro de Ginecologia e Obstetrícia da Infância e Adolescência, em Curitiba, a preocupação com o crescimento do número de adolescentes que engravidam entre os dez e 18 anos deve transpor as questões técnicas do risco de engravidar nessa fase da vida. Segundo ele, o risco está muito mais ligado ao não acompanhamento adequado durante a gestação e à falta de cuidados.
Reis defende um maior envolvimento da classe médica nas questões sócio-culturais e educativas que, para ele, são a raiz do problema . ''O profissional não pode se limitar a prescrever o anticoncepcional, acreditando que sua função está restrita a isso'', alertou. ''Ele precisa enxergar o problema numa outra amplitude, ter uma participação mais efetiva na vida social e familiar da adolescente e mostrar que ela pode ter outros ideais de vida'', completou. O médico é a favor, também, de um trabalho multidisciplinar, que envolva profissionais de psicologia, assistência social, educação e enfermagem.
A frequência de adolescentes de classe média (cada vez com menor idade) nos consultórios de ginecologia vem aumentando. Mas, segundo o professor de Medicina da Pontifícia Universidade Católica (PUC) de Porto Alegre (RS), Marcolino Poli, entre as populações carentes onde está a maior incidência de adolescentes grávidas esse hábito não existe e isso é outro ponto a ser trabalhado. ''Entre os excluídos, a adolescente só procura um ginecologista ou porque está com alguma doença ou porque está grávida'', afirmou.

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