Brasília, 25 (AE) - Nunca o ensino superior brasileiro teve tantos alunos. No ano passado, mais 180 mil ingressaram nos cursos de graduação, um crescimento de 9% em relação a 1997. Nos últimos quatro anos, o aumento de matrículas no nível superior foi de 28%, mais do que no período de 1980 a 1994 (20%). Apesar do crescimento, apenas 7,7% da população brasileira de 20 a 24 anos é atendida. Na vizinha Argentina, essa taxa é de 16,8% e, nos Estados Unidos, 21,5%.
"Temos de expandir ainda mais o ensino superior", disse hoje o ministro da Educação, Paulo Renato Souza, ao divulgar o censo de 1998. De acordo com o levantamento, havia no País, no ano passado, 2 milhões e 125 mil alunos. Somando os estudantes de pós-graduação, esse número sobe para 2,7 milhões.
O crescimento ocorreu principalmente no setor privado. Desde 1994, o número de alunos nas escolas particulares cresceu 36,1%, bem acima dos 12,4% verificados nas universidades federais, dos 18,5% nas estaduais e dos 27,6% nas municipais. Em 1998, as instituições particulares eram responsáveis por 62% do total das matrículas, o equivalente a 1,3 milhão de estudantes.
O Ministério da Educação (MEC) recebeu no ano passado 760 pedidos de abertura de cursos, dos quais 334 foram autorizados. Esses dados referem-se apenas às solicitações encaminhadas pelas faculdades isoladas, uma vez que as universidades e os centros universitários têm autonomia para a criação de cursos. Paulo Renato quer que a expansão ocorra com qualidade.
Crítica - Projeções do governo apontam para 3 milhões de universitários em 2004. Para atender a essa demanda, será necessário criar mais 875 mil vagas nos próximos cinco anos, segundo o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacional (Inep), órgão ligado ao Ministério da Educação (MEC) responsável pelo censo.
Paulo Renato criticou o fato de as universidades federais não usarem o turno da noite para expandir vagas. Dos 408.640 estudantes das universidades federais no ano passado, apenas 20,1% (82.284) estavam cursando o período noturno. Já nas instituições particulares, 66,4% se concentravam em cursos noturnos. Diante dessa realidade, segundo o raciocínio do ministro, quem precisa trabalhar durante o dia acaba tendo de pagar para estudar à noite.
"É preciso haver determinação das instituições federais em criar cursos noturnos", cobrou o ministro. Em comparação com 1997, o número de vagas nas instituições federais subiu 3,2%, enquanto, nas particulares, essa taxa foi de 11,4%, acima das municipais, com 10,5%, e das estaduais, com 8,4%.
O ministro apontou dois problemas graves nas universidades federais: a ociosidade de vagas, provocada por desistências, trancamento de matrícula e dificuldades de transferência, e a baixa relação aluno/professor. Segundo o MEC, 7,8% dos alunos das federais trancaram a matrícula em 1998, enquanto a média nacional ficou em 5,4%.
Professores - O censo revelou que há muitos professores para poucos alunos nas instituições públicas brasileiras. No caso das federais e estaduais, essa relação é de nove estudantes por professor. "Cansei de formar turmas com apenas dez alunos"
lembrou Paulo Renato, que foi reitor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Nas privadas, a relação é de 16,2 alunos por professor, comparável a dos países integrantes da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE), com 16,7 estudantes por docente.
"As universidades públicas federais podem ampliar o número de alunos sem precisar aumentar, proporcionalmente, o de professores", disse Paulo Renato. Em relação à cobrança dos reitores das federais, que reclamam da falta de recursos para a manutenção e o custeio das instituições com o atual número de alunos, o ministro foi enfático: "Isso não é problema de dinheiro, mas de mentalidade." Em 1998, o MEC deixou de repassar R$ 30 milhões previstos no Orçamento da União para o custeio das federais.
Atraso - O governo acredita que a expansão do ensino superior é resultado da elevação do número de alunos e concluintes do ensino fundamental e médio. Entre 1994 e 1998, o 2º grau cresceu 40%. Segundo ele, o ritmo de crescimento do nível superior era mais lento no País por causa da debilidade da educação básica, o que resultava em um número reduzido de alunos aptos a ingressar na universidade.
O censo mostrou que a expansão do ensino superior está ocorrendo mais no interior, fenômeno que vem sendo verificado desde o início da década de 90. No ano passado, as instituições localizadas fora das capitais reuniam 1,103 milhão de universitários, enquanto nas capitais estavam matriculados 1,022 milhão de alunos.
Os estudantes brasileiros continuam chegando tarde à universidade. A idade média é de 25 anos, enquanto o ideal, de um modo geral, é que fizessem o curso dos 18 aos 22 anos. O "atraso" no ingresso é um dos reflexos das altas taxas de distorção idade/série verificadas desde o ensino fundamental, no qual 46,7% dos alunos têm idade superior à prevista para a série que frequentam. No ensino médio, a distorção é ainda maior: 53 9%, sendo que 3,7 milhões de secundaristas têm 18 anos ou mais.

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