Aumenta distância entre pobres e ricos nos EUA
DES MOINES, Iowa (AE) - Elizabeth Miller gasta US$ 180 por mês na farmácia, nos quatro remédios receitados pelo seu cardiologista para controlar a pressão alta e o colesterol. A soma equivale a quase um quarto de sua aposentadoria de US$ 800 de professora de escola pública em Des Moines, capital do pequeno estado americano de Iowa.
"Consigo pagar minhas contas porque também investi num fundo de pensão privado, que me dá uma renda adicional de US$ 1,3 mil", explica. "Não faz sentido que, com tanta prosperidade nos Estados Unidos, o ensino está piorando e a saúde seja inacessível para muitos".
Por achar que apenas um homem tem preparo para manter a estabilidade econômica adquirida e, ao mesmo tempo, investir em programas sociais, Miller votou na segunda-feira por seu candidato às eleições presidencias de novembro: o vice-presidente Al Gore, do Partido Democrata.
Mas Dominic Aiello, filho de imigrantes italianos em Iowa, acha que o governo deveria aproveitar essa era de prosperidade para reduzir os impostos. Por isso escolheu o governador do Texas, George W. Bush, do Partido Republicano, que prometeu uma redução da carga tributária de US$ 483 bilhões em cinco anos.
Iowa foi o primeiro dos 50 estados americanos a realizar uma prévia. Na segunda-feira, 200 mil pessoas (10% do eleitorado estadual e 1% do eleitorado nacional) votaram para definir quais dos oito pré-candidatos (dois democratas e seis republicanos) disputarão as eleições presidenciais no fim do ano. Os resultados apontaram Gore e Bush como favoritos.
Mas o segundo teste será no próximo dia 1º de fevereiro em New Hampshire. E nesse estado, mais industrializado que Iowa, os pré- candidatos e eleitores americanos continuarão um debate que para eles é totalmente novo: o que fazer com tanta riqueza?
Em fevereiro, a economia americana crescerá pelo pelo 107º mês consecutivo. O índice de desemprego, de 4,2%, é o mais baixo das últimas três décadas. Em Iowa - cuja população rural foi seriamente afetada pela crise agrícola dos anos 80 - tanta prosperidade chega a ser um problema. Com apenas 2,1% da mão-de-obra ativa sem trabalho, sobra emprego. E o estado já admitiu que precisa importar imigrantes se quiser continuar produzindo no mesmo rítmo.
Apesar desse boom econômico, 44,3 milhões de americanos (um em cada seis) não têm qualquer tipo de seguro médico. Desses, 11 milhões são crianças. Como a saúde foi privatizada, só tem cobertura médica quem quer e quem pode. E os que podem são cada vez menos: segundo o economista Joseph Newhouse, da Universidade de Harvard, os gastos em seguro médico aumentam uma média de 10% ao ano, muito acima da inflação.
A Previdência Social por enquanto está superavitária. Mas daqui a 30 anos o número de americanos que recebem aposentadoria e pensões dobrará dos atuais 44 milhões para 82 milhões, e o governo não terá dinheiro para pagá-las. Os remédios - apesar de serem criados e produzidos nos EUA - custam mais caro nas farmácias americanas do que no Canadá ou no México.
Um recente estudo demonstrou que a prosperidade da última década gerou maiores desigualdades, beneficiando mais os ricos (cuja renda aumentou 15%) do que a classe média (que passou a ganhar apenas mais 2%). A situação dos mais pobres permaneceu praticamente igual, ou até pior. Muitos que empobreceram na crise dos anos 80 jamais se recuperaram.
Sem investimentos em educação pública, o fosso será ainda maior, dividindo os jovens americanos em duas classes: aqueles que têm acesso a computadores e empregos no crescente setor de alta tecnologia e aqueles que serão excluídos do novo mundo digital.
Essa semana, o Congresso anunciará que o superávit orçamentário na próxima década será de US$ 2 trilhões - o dobro da soma prevista em julho passado. A discussão agora, que dominará a campanha eleitoral, é saber o que fazer com esse dinheiro que sobra.(M.I.)





