Rio, 05 (AE) - O chefe da auditoria interna do Banco do Brasil, Gilberto Audelino, assumiu hoje a diretoria de investimentos da Previ, o poderoso fundo de pensão do banco. Uma alta fonte do banco afirmou que o diretor Derci Alcântara perdeu o cargo após suspeitas sobre a venda de um bloco grande de ações da Itaúsa, em novembro. Na diferença entre a taxa de corretagem paga pela intermediação da venda e a taxa praticada pelo mercado
o fundo perdeu pelo menos R$ 8,3 milhões. Além disso, entre a data da venda e dezembro, as ações relativas ao bloco se valorizaram R$ 200 milhões até dezembro. O leilão rendeu R$ 555 7 milhões à Previ.
Segundo o presidente do BB, Paolo Zaghen, a troca é "natural" e o afastamento de Alcântara não foi consequência de má administração. O presidente da Previ, José Tarquínio Ferro, reuniu hoje os diretores, inclusive Alcântara e Audelino, para anunciar a mudança, mas não quis se pronunciar.
A Previ pagou 4% do valor da venda das ações à corretora CSFB First Boston, ou cerca de R$ 22 milhões, pela intermediação
como confirmou hoje Alcântara. Ele considerou este o padrão do mercado, "utilizado inclusive pelo BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social)". Segundo a reportagem apurou junto a corretoras que trabalham com a BNDESPar, braço de participações do BNDES, a instituição costuma pagar 2,5% - o que daria R$ 13,9 milhões. Mas este não foi o único fato "estranho" no negócio, informou um operador.
No edital publicado pela Previ, completou ele, havia uma quebra das regras de colocação de papéis. Na intermediação, uma corretora é remunerada por três trabalhos: coordenação (preparação da operação, como elaboração dos editais), garantia (compromisso de pagar um preço mínimo pelos papéis, se não houver interessados) e colocação (compra efetiva das ações).
A corretora normalmente recebe pela colocação proporcionalmente ao montante que comprou. Mas o edital da Previ
disse o operador, ditava que toda a taxa de colocação fosse paga à CSFB Garantia. A corretora comprou cerca de metade dos papéis e a própria Itaúsa, por meio da corretora Itaú, comprou a outra metade, em uma operação que precisou do aval da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), por ser vultosa. Foram vendidas no leilão 390.109.546 ações, que correspondiam a 19,09% das preferenciais e a 12,55% do capital total da Itaúsa.
Alcântara, que era superintendente do BB no Paraná antes de entrar na Previ, destacou que a venda não foi questionada pelo banco e sua saída fazia parte de uma estratégia da instituição. "O banco me convidou para exercer outra função que ainda está sendo definida", ressaltou. "Minha família ainda mora em Curitiba e eu não pretendia ficar muito tempo no Rio". O ex-diretor disse que a operação foi uma decisão unânime da diretoria da Previ.
Segundo a Comissão de Valores Mobiliários (CVM), a Previ chegou a pedir uma autorização especial para fazer o leilão no mercado de balcão e não em bolsa de valores, como manda a lei. Mais tarde, o fundo voltou atrás. A venda de bloco de ações no mercado de balcão é uma operação mais restrita e não permite que haja a chamada "interferência", ou seja, a entrada de outros vendedores no negócio.
Os técnicos da CVM disseram que, estruturalmente, o negócio foi feito dentro da lei das Sociedades Anônimas. Mas, em relação à intenção da operação, cabe à Secretaria de Previdência Complementar avaliar. O órgão já pediu mais detalhes à Previ.