Washington, 18 (AE) - Depois de esperar cinco meses pela sabatina de confirmação como embaixador dos Estados Unidos no Brasil, J. Brian Atwood desistiu hoje (18) do posto. A decisão foi motivada pela oposição a seu nome do presidente da Comissão de Relações Exteriores, Jesse Helms, um ultraconservador da Carolina do Norte, segundo explicação do próprio Atwood. Um ex-diplomata que fez carreira na máquina do Partido Democrata e dirige agência americana de desenvolvimento internacional, a USAID, desde 1993, Atwood é o segundo candidato de Clinton para a chefia da representação dos EUA no Brasil que abre a mão da posição. O posto ficou vago em meados do ano passado com a partida do embaixador Melvyn Levitsky. O primeiro escolhido por Clinton, o advogado texano H. Lee Godfrey, desistiu antes de ser nomeado, no segundo semestre do ano passado, depois que os advogados da Casa Branca exigiram, para evitar aparência de conflito de interesses, que ele renunciasse a receber mais de US$ 1 milhão em honorários por um caso no qual trabalhou, mas que só seria resolvido quando ele já estivesse em Brasília.
Atwood, que visitou nas últimas semanas vários senadores membros da Comissão de Relações Exteriores em busca de apoio, explicou sua decisão de escrever a Clinton e retirar seu nome numa nota oficial. "Concluí que, se continuasse a buscar a confirmação (pelo Senado), eu apenas adiaria ainda mais a nomeação de um embaixador num país que tem importância vital (para os EUA)", declarou ele.
A briga de Helms com Atwood vem da bem sucedida resistência que o diretor da USAID ofereceu aos planos do senador de fechar sua agência, fundindo-a com o departamento de Estado. Segundo Atwood, o senador "acredita que eu defendi com demasiado vigor a posição da administração (de manter a USAID como órgão independente). Lamento que ele tenha esse sentimento mas não lamento ter lutado pela independência da USAID", afirmou. Atwood indicou que pretende renunciar em breve à direção da USAID e à função que hoje exerce de coordenador da assistência humanitário dos EUA para os refugiados de Kosovo.
Dois anos atrás, Helms bloqueou a candidatura do ex-governador de Massachusetts, o republicano William Weld, para a embaixada no México.
No momento, o senador mantém travada a confirmação do embaixador Peter Romero no posto de secretário de Estado adjunto para a América Latina , que ele ocupa interinamente desde o ano passado. Ao olhos de Helms, Romero foi não zeloso o suficiente na aplicação de uma emenda que ele co-patrocinou, pela qual os EUA deram-se o direito, ao arrepio das leis internacionais, de aplicar sanções econômicas e diplomáticas a empresas de terceiros países com negócios em Cuba. Também parada na gaveta do senador está a nomeação do negociador da paz na Bósnia, o embaixador Richard Holbrooke, para a chefia da missão dos Estados Unidos nas Nações Unidas, que está sem titular há quase dois anos e meio. Com esses casos em mente, Atwood reconheceu hoje que a presidência do Comitê de Relações Exteriores do Senado dá a Helms prerrogativas difíceis de serem desafiadas com sucesso.
Restando apenas dezenove meses em seu segundo e último mandato, Clinton terá dificuldade para encontrar um candidato qualificado para a embaixada em Brasília e disposto a aceitar o cargo por um período que pode não chegar sequer a um par de anos
na hipótese de os republicanos ganharem a Casa Branca na eleição presidencial de novembro do ano que vem.
A embaixada americana em Brasília não é a única que ficará vaga por mais algum tempo na região do Mercosul. A representação dos EUA em Buenos Aires, que está sem embaixador desde dezembro de 1996, deverá continuar por mais uns meses sob o comando de um encarregado de negócios. A razão foi a implosão, na semana passada, da candidatura do executivo financeiro Hassan Nemazee, um descendente de iranianos que Clinton nomeou embaixador na Argentina na mesma época em que designou Atwood para o Brasil. Nemazee perdeu qualquer chance de ser confirmado pela comissão de Helms depois que a revista Forbes revelou, no início do mês, que ele obteve um passaporte falso na Venezuela há uns anos atrás para qualificar-se como hispânico num negócio de administração de fundos de pensão dos funcionários do governo da Califórnia. Como Nemazee conseguiu a nomeação para a embaixada dos EUA em Buenos Aires por causa dos mais de US$ 250 mil que deu em contribuições ao Partido Democrata e à campanha do vice-presidente, a Casa Branca não quer desnomeá-lo para não ter que dar explicações. Mas o departamento de Estado já deixou de responder os telefonemas de Nemazee, na esperança de que ele siga o exemplo de Atwood e também desista da idéia de ser embaixador.

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