ATT.: ESTA MATÉRIA É PARA SER PUBLICADA NA EDIÇÃO DE DOMINGO Foi Menem quem fez!
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 09 de setembro de 1999
Por Marc Margolis, da Newsweek (assinatura obrigatória) 
BUENOS AIRES (AE-NEWSWEEK) - Acabaram-se os ponchos sentimentais e as exóticas gravatas salmão que ele ostentava há uns dez anos. Acabou-se também o cortejo de milionários, de modelos e de astros do cinema que costumavam ficar colados em torno de Carlos Menem como sombras ao meio-dia. Agora, até mesmo a provocante Ferrari Testarossa, um dos símbolos dos primeiros e levianos anos do presidente da Argentina, está estacionada na garagem de algum outro dono. Menem parecia outrora o mais vibrante entre os líderes vivos do mundo, com um sorriso fotogênico para todas as câmeras e uma voz insinuante para cada microfone. A magia se desvaneceu há muito tempo - não apenas para o presidente, mas também para o povo argentino. Contudo, nas últimas semanas de sua longa e muitas vezes sofrida presidência de dois mandatos, ele continua ereto e firme. "Vou trabalhar até a última hora de meu último dia", disse ele numa entrevista à Newsweek. "O poder é rejuvenescedor".
O cargo deixou Menem visivelmente mais envelhecido, apesar do que ele diz. Seu índice de popularidade despencou, atingindo recordes de rejeição, passando do estonteante auge de 86%, em 1989, para uma pobre taxa de apenas 28% recentemente. Escândalos e rebeldias políticas obrigaram dois de seus principais ministros a deixarem seus postos nos últimos meses. Muitos de seus mais estreitos aliados o abandonaram. Na campanha para a eleição presidencial, marcada para 24 de outubro, todos os três principais candidatos, inclusive o indicado pelo Partido Justicialista de Menem, estão tentando agressivamente distanciar-se da imagem do presidente em fim de mandato. Mesmo assim, ele dá pouco valor às pesquisas de popularidade, considerando-as "meros fogos de artifício" disparados por seus inimigos e ironiza os candidatos que aspiram à sua sucessão. "Se me deixassem, poderia derrotar todos eles", afirma. A Constituição argentina proíbe expressamente um terceiro mandato presidencial. Mesmo assim, apenas uma quase-revolta no Congresso e uma ação penal no Supremo Tribunal o dissuadiram de candidatar-se pela terceira vez.
De acordo com muitos padrões, Carlos Saúl Menem, de 69 anos, deveria estar inundado de glória. Quando chegou à presidência, em julho de 1989, o país vivia um verdadeiro caos econômico e social. Seu predecessor, Raul Alfonsín, havia sido afastado do cargo cinco meses antes por uma inflação de quatro dígitos e uma crescente insatisfação popular. Menem amainou a crise, trouxe ao país bilhões de dólares de investidores estrangeiros e efetivamente reinventou toda essa extensa nação de 36 milhões de habitantes com sua economia de US$ 290 bilhões.
Usando os remédios do mercado livre - anteriormente um tabu em quase toda a América Latina - Menem transformou a Argentina num modelo de reforma econômica para a região. Apenas para lembrar - se alguém não notou o milagre - anúncios de TV estão apregoando todos os dias as conquistas de Menem: sensacionais imagens de novas rodovias, pontes, escolas, linhas de telefone e monumentos. "Menem lo hizo!"(Foi Menem quem fez!) - proclamam os anúncios patrocinados pelo governo.
E isso não foi tudo o que ele fez. No dia 10 de dezembro, quando expirar seu mandato, Menem terá exercido o cargo mais tempo do que qualquer outro líder - quer seja democrata ou ditador - na história da Argentina. Ele já governou mais tempo do que o legendário Juan Domingo Perón (que foi presidente por 10 anos em dois exercícios não consecutivos. Enquanto isso, Menem manteve as Forças Armadas sob estrito controle e fora da política. Ele pode ter quebrado todas as regras e ofendido quase todos, mas nunca se desviou de seu compromisso com a democracia. Somente isso já foi uma espantosa conquista numa nação conhecida pelos golpes, pelas Constituições descartáveis e por dirigentes populistas messiânicos que empolgavam o populacho - como Perón. "Existe uma linha divisória na história argentina", diz Miguel Broda, conceituado economista argentino. "Antes e depois de Menem".
Mas estes são os dias agonizantes para o presidente e seu país. Pela segunda vez em cinco anos, a Argentina está nas profundezas de uma recessão. A produção industrial caiu durante 11 meses consecutivos. O desemprego afeta cerca de 15% da população economicamente ativa. Num domingo recente, em Buenos Aires, um milhão de fieis se concentrou na igreja de São Caetano
o padroeiro dos desempregados. Uma greve dos caminhoneiros quase paralisou o país em julho. As capitais das províncias estão sendo novamente agitadas por manifestações de protesto. Uma onda de crimes nas ruas está assolando as cidades em todo o país.
Existem muitas razões para estes problemas da Argentina, como por exemplo a rápida urbanização e as reestruturações que reduziram o tamanho das empresas. Mas muitos argentinos têm uma explicação mais simples: "Menem lo hizo, también" (Menem fez isso, também), dizem eles.
Os operários em greve voltaram à enorme Plaza de Mayo, que se transformou num símbolo mundial para a causa da democracia e dos direitos humanos. Em 1983, o alvo dos manifestantes era uma brutal Junta militar; agora é o Menenismo - um termo que outrora costumava significar coragem e habilidade, mas agora tornou-se sinônimo de tudo o que é vergonhoso, corrupto e desonesto.
No princípio, ninguém imaginaria que Menem poderia transformar-se num herói nacional. Quando disparou, de forma galopante, desde a poeirenta província de la Rioja para a política nacional, Menem transtornou a sociedade argentina. Ostentando o padrão dos herdeiros políticos de Perón, os Justicialistas, Menem parecia a encarnação do ardente líder populista, pronto a lutar pelos pobres e a recompensar seus seguidores com privilégios e concessões. Em vez disso, ele virou as costas ao Peronismo. Vendeu quase uma centena de empresas governamentais e cortou implacavelmente o superinflado funcionalismo público civil. Enquanto os peronistas à moda antiga costumavam prometer "combater o capitalismo", Menem cortejava as grandes empresas.
Talvez isso às vezes fosse muito cômodo. Assessores dos mais altos escalões estavam envolvidos em todo tipo de escândalos de subornos e de comprometedores acordos com namoradinhas, desde supostas propinas em contratos de computadores até obscuros negócios de venda de armas nos Bálcãs. Mas a mancha nunca atingiu o próprio presidente. E ele acionou a mágica econômica: em dez anos a Argentina atraiu investimentos externos diretos no valor de US$ 50 bilhões e seu PIB aumentou 57% entre 1991 e o ano passado. O único país latino-americano que poderia ufanar-se de algo parecido era o Chile sob os calcanhares de Augusto Pinochet - mas os programas do general chileno jamais foram estorvados pela liberdade de expressão, pelos sindicatos trabalhistas ou pelos tribunais.
As mudanças de Menem foram mais profundas do que a economia. Ele tirou a Argentina de sua acanhada "concha" diplomática, visitando 48 países e buscando novos amigos em Washington, Londres e até no Vaticano.
Despachou duas fragatas argentinas para participarem da campanha militar contra Saddam Hussein durante a Guerra do Golfo e, no início deste ano, ofereceu-se para enviar tropas a Kosovo. Pôs fim a uma perigosa disputa fronteiriça com o Chile e restaurou as relações com a Inglaterra, envenenadas desde a guerra das Ilhas Malvinas em 1982.
A chave para tudo isso foi uma única reforma econômica, o "plano de convertibilidade", posto em prática em janeiro de 1992. Concebido por Domingo Cavallo, ex-ministro da Economia, o plano estabilizou a moeda equiparando-a ao dólar . Os argentinos podiam manter depósitos tanto em pesos quanto em dólares e convertê-los sempre que quisessem na base da paridade (1-1). A âncora cambial do dólar deteve a inflação, trouxe a confiança dos investidores e persuadiu os apavorados investidores argentinos a repatriar as fortunas que haviam despachado para portos mais seguros no exterior. "Lembrem-se de que este era um rapaz inculto vindo do interior", diz Broda. "Uma pessoa formada numa faculdade jamais teria tido a audácia de fazer as mudanças realizadas por Menem".
O presidente argentino trouxe um tempero inusitado para a Casa Rosada, residência oficial do governo. Em Buenos Aires, onde a sofisticação e a elegância constituem na prática uma religião, ali estava esse cholulo, esse "caipira", calçando sapatos de couro branco envernizado e trajando ternos em tom pastel, com seus cabelos compridos e rebeldes soltos ao vento. Sua política era parecida com seu guarda-roupa: ruidosa, irreverente e, acima de tudo, um espetáculo. O povo argentino ficava pasmado ao ver Menem tagarelar com estrelas de cinema e heróis do esporte. Os argentinos não puderam deixar de arregalar os olhos quando ele pôs um fim ao seu casamento em estilo teatral, trancando as portas do palácio presidencial para que sua esposa, Zulema, não pudesse mais entrar. Fazia consultas com cirurgiões plásticos e, de repente, toda a alta sociedade estava fazendo fila para realizar operações plásticas. Às vezes, suas excentricidades saiam fora do normal, como quando ele aceitou o duvidoso presente de uma Ferrari Testarossa doado por empresários que cortejavam seu governo. "Minha! Minha! Minha!" - gritou Menem quando os jornalistas lhe fizeram algumas perguntas embaraçosas a respeito da Ferrari. E depois arrancou em disparada com seu carro pela costa argentina.
Em determinado ponto deste seu longo e alegre passeio, Menem perdeu o rumo e ficou desnorteado. Talvez a causa tenha sido a morte de seu filho único, Carlitos, num desastre de helicóptero em 1995, uma tragédia que quase arrasou o presidente. Talvez tenha sido sua cega ambição de permanecer no poder. Mas, independentemente do que houvesse de errado, o país precisava urgentemente da atenção não dividida de Menem. A crise do peso mexicano em 1994 afetou duramente a Argentina. A economia recuperou-se, mas depois vieram os colapsos econômicos no Leste da ásia e na Rússia. As esperanças de uma rápida recuperação se desvaneceram neste ano, quando o Brasil foi obrigado a declarar uma inesperada desvalorização do real, arrastando para a recessão o maior mercado de exportação da Argentina. Depois disso, a economia brasileira se reergueu um pouco, mas Brasília e Buenos Aires continuam brigando por causa do comércio. As disputas entre os dois deixou paralisado o mercado comum regional do Mercosul.
A Argentina não corre o perigo de uma "fusão" da economia, como ocorreu na ásia, afirmam os economistas, apesar do déficit cada vez maior do país, projetado em US$ 9,5 bilhões neste ano, e de sua dívida externa de US$ 114 bilhões. Existe um debate crescente a respeito da taxa fixa de câmbio, uma meta favorita dos especuladores monetários, mas ninguém está pedindo uma desvalorização. Os argentinos estão atolados até o pescoço em dívidas expressas em dólares e a desvalorização poderia levar à falência milhares de empresas. Menem gostaria de eliminar completamente o peso em favor do dólar, mas uma decisão desse tipo exigiria espinhosas negociações com o Federal Reserve, o banco central dos Estados Unidos.
Os tempos estão sendo os mais duros para os "novos pobres", os argentinos deixados pela expansão econômica de Menem. A Argentina ainda se vangloria de ter a maior renda per capita da America Latina. Mas a brecha entre ricos e pobres vem se escancarando desde a década de 1970 e, sob o governo de Menem, tornou-se um abismo - uma enorme cratera que está começando a espantar as pessoas. "Evita Perón se rebolava por aí com seus 200 pares de sapatos, mas o povo a admirava", diz Manuel Mora y Araujo, analista político. "Agora, as pessoas estão exigindo um estilo político de governo mais sério, mais austero".
De fato, Fernando de la Rúa, candidato presidencial da Aliança, a coalizão de oposição, lançou brevemente uma propaganda política para mostrar quanto está aborrecido com isso. Homem sério e pensativo, de testa franzida, habituado a usar ternos marrons, De la Rúa tem agora a preferência dos eleitores com uma confortável margem de 19 pontos acima do candidato justicialista, Eduardo Duhalde, homem baixo e gordo, parecido com o ator Joe Pesci. Duhalde está mantendo conversações intensas com Domingo Cavallo, pai do peso conversível de Menem, situado em terceiro lugar nas pesquisas.
Mas a Argentina precisa bem mais do que ternos sóbrios e rostos preocupados. Todos os três candidatos prometeram preservar os benefícios do regime de Menem enquanto, ao mesmo tempo, prometem de alguma forma gerar empregos, tornar as ruas mais seguras, limpar o governo e romper com o dólar. Mas como? - Nem perguntem isso. "Uma das lições da era Menem é que ninguém jamais ganha uma eleição dizendo o que vai fazer", disse o cientista político Matteo Goretti. De la Rúa foi elogiado por ter equilibrado as contas como prefeito de Buenos Aires. Mas seu principal atrativo é o seguinte: ele não é Menem. "Ai de Menem!", advertiu recentemente De la Rúa. "Ele é o principal culpado pela corrupção, pela impunidade e pelo hiper-desemprego que hoje estamos vendo".
Mas a vitória só poderá humilhar De la Rúa. O Partido Justicialista detém a maioria no Senado, conta com um enorme bloco de votos na Câmara, uma maioria nas províncias e tem o controle total dos sindicatos trabalhistas. Menem tem amigos nos tribunais, inclusive cinco dos nove juizes do Supremo. De la Rúa poderá tornar-se um dos presidentes mais fracos da história argentina.
A sombra do presidente em fim de mandato não termina após sua saída.
Menem desmantelou a velha Argentina, descartando décadas de privilégios e garantias, tais como cargos vitalícios e aposentadorias e cuidados de saúde universais. Em troca, o povo ganhou telefones que funcionam, ruas pavimentadas e lanches Burger King. Agora, os políticos estão dizendo aos argentinos que seu país precisa de mais reformas ainda, como, por exemplo, de uma lei trabalhista mais flexível e de um sistema fiscal radicalmente reestruturado. Muitos argentinos estão cansados de fazer tais ajustes. Como disse Goretti, "a sociedade está sofrendo a fadiga das reformas".
Apesar disso, persiste o sonho de uma Argentina melhor. O serviço civil estava viciado com propinas, subornos e comissões antes da reestruturação de Menem, do país. Agora, as pessoas não são mais tolerantes. Uma recente pesquisa Gallup colocou a corrupção como a segunda maior preocupação do país, depois do desemprego. Alguns analistas afirmam que o dia do caudillo pode também já ter passado.
Menem desafiou seu partido, ignorou os sindicatos e testou o Congresso e os tribunais emitindo mais decretos do que qualquer outro, mas esses problemas estavam muito abaixo na lista das principais preocupações presidente antes dele - e, no fim, seu país ficou zangado com ele .
Seja como for, a Argentina jamais será a mesma. Menem deixou sua marca.


