Brasília, 12 (AE) - Em ano eleitoral, a atração dos holofotes está criando clima de disputa acirrada entre os integrantes da CPI dos Medicamentos. Deputados e líderes no Congresso já começaram a alertar para a necessidade de evitar que interesses políticos interfiram no resultado dos trabalhos para não desacreditar a imagem da instituição. Mesmo assim, integrantes da comissão admitem transformar sua atuação em dividendos nas eleições municipais. "É voto", admitiu o relator da CPI, deputado Ney Lopes (PFL-RN), que disputará o governo municipal com a atual prefeita de Natal, Wilma Faria (PSB). "Não vou ser hipócrita e negar que minha atuação na comissão tem trazido resultados positivos", disse. Orgulhoso, ele contou que já é apontado nas ruas da cidade como "o homem que vai baixar os preços dos remédios". Ação - "Onde há ação política, é normal que o deputado queira estar em foco, desde que seu trabalho apresente resultados", justifica Lopes, que tem tido uma missão a mais na CPI. Almoça ora com o ministro da Saúde, José Serra, ora com o da Fazenda, Pedro Malan, aparando arestas da difícil relação entre os dois. Serra foi um dos incentivadores da CPI e também espera faturar politicamente com seus resultados.
Para o presidente da Câmara, deputado Michel Temer (PMDB-SP), é importante que a disputa política não atrapalhe. "Essa história de holofote é inevitável", afirmou. O deputado José Genoíno (PT-SP) diz que o sucesso da atual CPI é fundamental para não abalar a imagem do Congresso ou desacreditar um "instrumento importante de investigação". Ele lembrou que essa é a quinta CPI de medicamentos. As outras não trouxeram resultados. "Há casos de CPI que provocaram alarde e depois se esvaziaram"
alertou o líder do governo na Câmara, deputado Arnaldo Madeira (PSDB-SP).
Dentro da CPI, a situação de Ney Lopes e do presidente da comissão, deputado Nelson Marchezan (PSDB-RS), não tem sido confortável. Enfrentam a pressão dos que os consideram "tímidos" nas investigações. "Falta coragem para enfrentar os laboratórios", acusa o deputado e também candidato a prefeito Alceu Collares (PDT-RS), criticando Marchezan por não ter apoiado uma devassa ampla nos laboratórios. "Pode parecer, mas não tenho interesses políticos", garantiu o presidente da comissão. "Minha candidata é a Yeda", continuou ele, referindo à deputada Yeda Crusius, adversária de Collares.
"A prova de que Marchezan procura holofote na CPI foi a visita desnecessária que fez ao laboratório da Fundação do Remédio Popular (Furp), em São Paulo", retrucou Collares. A preocupação política de alguns deputados acaba frequentemente dando origem a denúncias apressadas e com pouca fundamentação. Há poucos dias, por exemplo, o deputado Arlindo Chinaglia (PT-SP), teve de sair correndo em busca de provas para dar sustentação a uma denúncia apresentada pelo deputado Iris Simões (PTB-PR).