Cerca de 1,5 mil pessoas, segundo informações da Polícia Militar, participaram ontem de uma manifestação pela paz organizada pela família e por amigos do garoto Yves Ota, de 8 anos, que foi sequestrado e morto no início do mês. A passeata, que ocorreu junto com os festejos dos 329 anos do bairro do Tatuapé, também contou com o apoio do Movimento Reage São Paulo. Os manifestantes vestiam camisetas brancas com os dizeres ‘‘Yves, Mensageiro da Paz’’.
A concentração começou por volta das 8 horas. Masataka Ota, pai do menino, que chegou mais tarde, disse que a adesão das pessoas ao movimento o confortavam pela perda do filho. ‘‘Hoje, a única coisa que sinto é saudade dele’’, disse. Masataka falou, emocionado, que compreendeu que o filho era ‘‘um anjo que veio ao mundo para dar uma mensagem de paz’’. ‘‘Graças a Deus eu entendi o que ele veio fazer e agora quero continuar essa missão’’.
Ota também está empenhado em conseguir assinaturas para um abaixo-assinado contra a aprovação da lei que permite a progressão da pena para condenados por crimes hediondos. ‘‘Sou a favor da prisão perpétua para esse tipo de crime’’, disse.
Durante o percurso, os manifestantes usavam pranchetas e canetas para colher assinaturas. ‘‘Conseguimos 20 mil adesões em uma semana, mas quero colher 5 milhões e ir até Brasília para entregar nas mãos do presidente e do ministro da Justiça’’, disse.
Ota criticou os políticos e mandou uma mensagem para Fernando Henrique Cardoso: ‘‘Quero pedir que ele olhe para as crianças brasileiras do mesmo jeito como olha seu netinho que está sempre com ele aparecendo na tev꒒, disse. ‘‘O presidente não está vendo as crianças brasileiras, está vendo só os seus netos’’.
Albertina Café, do movimento Reage São Paulo, também estava presente. Com ela, alguns familiares de vítimas da violência urbana. ‘‘A comunidade teve a boa vontade de chamar a atenção para o problema numa festa como essa e isso é muito importante’’, disse. ‘‘Num país onde as carências são tantas ainda é difícil chamar o povo para passeatas e protestos’’.
FestaO ato saiu da Praça Sílvio Romero e terminou numa área cedida pela prefeitura na Rua Brigadeiro Eduardo Gomes. Após a passeata, a paz deu lugar à música e público cresceu em virtude da apresentação de shows de grupos de samba e pagode. A Polícia Militar previa a presença de 10 mil pessoas até as 18 horas.
Grupos da comunidades do Tatuapé, que comemoravam o aniversário do Tatuapé, juntaram-se aos manifestantes para pedir a paz, mas ficaram decepcionados com a organização do evento. ‘‘Nos convidaram para apresentar um número de dança, mas não tiveram o menor respeito por nosso trabalho’’, disse Roberta Amaral, diretora da Casa dos Açores de São Paulo, que divulga a cultura portuguesa.
Segundo ela, o grupo não pode se apresentar como estava combinado e além disso, a organização malfeita submeteu crianças de uma escola estadual e idosos de um grupo de terceira idade ao sol quente e cansaço. ‘‘Esse evento não passou de uma promoção para políticos e eu sinto muito por nós e pelo pai do Yves que veio falar de paz’’, disse.
O presidente do Conselho da Comunidade de Bairro do Tatuapé, Cleber Onias Guimarães, rebateu as acusações. ‘‘Aqui não tem nada político e eu me recusaria a participar se tivesse’’, disse. Segundo ele, os políticos convidados como o deputado estadual Ricardo Izar sequer foram convidados a falar. ‘‘As pessoas precisam entender que elas fazem parte da festa, mas não são a parte principal’’.
São três os acusados de participar da morte do menino. O motoboy Adelino Donizete Esteves, de 26 anos, o soldado da PM Paulo de Tarso Dantas, de 34, e o policial militar Sérgio Eduardo Pereira de Souza, de 28. O comerciante Ota está criando a Fundação Yves, com objetivo de arrecadar fundos para auxiliar entidades que cuidam de crianças carentes.

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