Ato em Curitiba lembra 6 milhões de vítimas do Holocausto
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segunda-feira, 28 de janeiro de 2019
Rafael Costa <BR> Reportagem Local 

Curitiba - "Por toda a vida vamos lembrar". Sob este lema, familiares de sobreviventes do Holocausto em Curitiba, religiosos e diplomatas lembraram o Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto na capital paranaense neste domingo (27), no Centro Israelita do Paraná, onde fica o Museu do Holocausto. O ato foi realizado pela manhã, na Sinagoga Beit Yaacov, e atraiu parte do público que visitava o museu.
Foram acendidas velas em memória aos 6 milhões de judeus assassinados na Europa durante a Segunda Guerra Mundial - uma delas pelo sobrevivente Amnon Czerny -, e discursos defenderam a importância de confrontar o genocídio.
O embaixador da Ucrânia no Brasil, Rostyslav Tronenko, foi um dos que discursaram. Ele lembrou que mais de 3 milhões de judeus ucranianos foram mortos no Holocausto e defendeu que há uma obrigação moral em discutir o tema "em tempos de relativismo agressivo", "tecnologias que disseminam facilmente ódio e intolerância" e em que "não há vacinas contra antissemitismo e estupidez".
Em entrevista à FOLHA, o coordenador geral do Museu do Holocausto de Curitiba, Carlos Reiss, disse que nunca foi tão importante falar sobre o Holocausto como nos dias de hoje. "Costumamos dizer que nosso sonho é um dia poder fechar o Museu do Holocausto e transformá-lo em outra coisa, mas a gente só vai conseguir fazer isso no dia em que não for mais preciso falar sobre isso. Não será tão cedo", disse.
Ele defende que, enquanto existirem pessoas sendo perseguidas, por quaisquer motivos, por outras que se sentem superiores, a discussão sobre o Holocausto é necessária - e este é o caso dos dias de hoje.
"A gente vive uma época em que o ódio e a intolerância saíram do armário e afloram no mundo inteiro. Quanto mais a gente se depara com situações de intolerância, xenofobia e racismo, torna-se importante transmitir os legados do Holocausto", afirma.
Sobreviventes
Reiss é neto de judeus que sobreviveram ao Holocausto. Ele diz que os relatos dos cerca de 250 sobreviventes ainda vivos no Brasil hoje têm o poder de aproximar o fato histórico da sociedade. "Quando se tem acesso ao depoimento em primeira pessoa ou a filhos que foram criados sob todo esse trauma, isso aproxima a tragédia da gente", disse. "Costumamos dizer que, no Museu, o pior que pode acontecer, é o jovem sair pensando que o Holocausto aconteceu já há muito tempo, em outro lugar e em outra época, e que não tem nada a ver com ele - ou seja, ele não conseguir se conectar", contou.
Foi o que fez Moisés Jakobson, falecido em 2015, aos 89 anos. Segundo seu filho José Jakobson, 59, o pai, sobrevivente de diversos campos de concentração na Polônia, demorou 40 anos para abrir seus relatos sobre o Holocausto.
"De repente, ele começou a falar. Achou importante relatar o fato porque percebia que os sobreviventes estavam ficando cada vez mais raros e, para a história não ser esquecida, ele se sentia na obrigação de dar seu testemunho vivo e se sentiu melhor por isso", contou. "Ele fez isso com o lema de que recordar é importante para o fato não se repetir", explicou. "Hoje, ainda acontecem barbaridades no mundo e a humanidade continua a apenas assistir", disse. "A constante análise torna-se necessária para fazer a humanidade despertar."
Filha de um casal de poloneses que sobreviveu ao genocídio e se estabeleceu em Ponta Grossa, a jornalista Blima Lorber também avalia que é urgente que as pessoas relembrem "até onde a intolerância e o preconceito podem levar". "Estamos vivendo uma época de intolerância incrível", avaliou.
Ao lado do irmão Szyja Lorber, ela escreveu o livro "As catorze vidas de David", que conta a história do pai, o polonês David Lorber Rolnik, que perdeu familiares e amigos no genocídio e sobreviveu a "marchas da morte" e aos gulags soviéticos antes de encontrar a futura esposa em um acampamento de refugiados e vir para o Brasil. "Como filhos de sobreviventes, nossa missão é levar a mensagem deles adiante", disse.
Dia internacional
A ONU instituiu o Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto em 2005. O dia 27 de janeiro foi escolhido por ser o aniversário da libertação de Auschwitz. Libertado em 1945, o campo de extermínio matou mais de um milhão de judeus.


