Ato dos sem reúne 40 mil em 20 estados
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 25 de julho de 1997
Agência Folha São Paulo 
Marie Hippenmeyer/France PressPalanqueEm São Paulo, o protesto transformou-se em comício de lançamento da candidatura de Lula à PresidênciaCerca de 40 mil pessoas em 20 estados participaram ontem do maior protesto contra o governo Fernando Henrique Cardoso. Os organizadores do ato Abra o Olho, Brasil esperavam a adesão de 70 mil manifestantes. A estimativa é, em grande parte, da Polícia Militar, mas inclui números dos manifestantes e da reportagem.
Desde a posse de FHC, o maior protesto contra o governo federal havia ocorrido no último dia 17 de abril, em Brasília, quando o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) liderou uma manifestação com 30 mil pessoas.
As manifestações de ontem, Dia do Trabalhador Rural, foram conduzidas pelos líderes do MST e da Central Única dos Trabalhadores (CUT). Os protestos foram engrossados por manifestações de sindicatos de petroquímicos e de transportadores de cargas. A adesão de policiais foi bem inferior às expectativas dos organizadores do Abra o Olho, Brasil. Os protestos ocorreram de maneira pacífica. O único incidente de maior gravidade ocorreu em Minas Gerais, onde 25 ônibus foram depredados e uma pessoa ficou ferida.
Em Corumbá (MS), o presidente Fernando Henrique Cardoso disse que a população brasileira não gosta de desordem. Ele participou da assinatura do acordo do gasoduto Brasil-Bolívia.
A principal manifestação ocorreu em São Paulo. Cerca de 7.000 pessoas participaram de um ato público na Avenida Paulista, contra 15 mil esperadas pelos organizadores. Os manifestantes saíram de diversas cidades do Estado e marcharam até a capital.
A CUT aproveitou o ato para propor a realização de uma greve geral no segundo semestre. A mobilização popular é crescente. Nossa intenção é fazer a greve, disse o presidente da entidade, Vicente Paulo da Silva.
Foi fraca a adesão de policiais civis e militares aos protestos de ontem em todo o País. Em Pernambuco e Alagoas, os policiais em greve não engrossaram o movimento. Em São Paulo, a Polícia Civil decidiu não entrar em greve.
Em Recife, os cerca de 10.000 manifestantes esperados ficaram reduzidos a 1.000, a maioria de trabalhadores sem-terra.
Em Maceió, o governo do Estado começou a pagar atrasados, e apenas cerca de 50 policiais civis e militares (que momentos antes decidiram permanecer em greve) acabaram comparecendo à manifestação.
Em São Paulo, policiais civis decidiram ontem não parar. Eles atribuíram o esvaziamento de assembléia que decidiria a greve à publicação de decreto do governador Mário Covas concedendo reajuste para a polícia paulista. Em Porto Alegre, a policiais civis em greve votaram e decidiram continuar a paralisação.
A manifestação Abra o Olho, Brasil em São Paulo transformou-se em comício de lançamento da candidatura de Luiz Inácio Lula da Silva à Presidência da República pela terceira vez. O protesto reuniu metade do número de participantes esperado pelos organizadores. O tom do comício em tudo lembrou os discursos adotados pela esquerda nas últimas campanhas eleitorais. A festa para Lula foi preparada por José Rainha Júnior, líder dos sem-terra.
Lula é a esperança. Em 98, temos de ir para a rua e o MST vai fazer campanha, afirmou Rainha no encerramento de seu discurso. Foi a senha para que se ressuscitasse o lema das últimas campanhas presidenciais de Lula: Brasil urgente, Lula presidente.
Satisfeito com a adesão da platéia, Lula não negou um discurso de candidato. Fernando Henrique já tirou Maluf pela direita e tentou tirar o PT com acusações. Mas conosco não vai conseguir. Na avaliação de Lula, o caso Cpem - denúncia de favorecimento de prefeituras petistas ao advogado Roberto Teixeira, compadre do líder do PT - foi articulado pelo Palácio do Planalto.
Aplaudido, Lula acrescentou: Em 98, vamos derrotar o neoliberalismo e eleger um governo comprometido com a classe trabalhadora. Na sequência, o público entoou velhos eslogans eleitorais de Lula. O tom de campanha também foi adotado por quase todos os oradores que apelavam para a unidade da esquerda em 1998. O presidente nacional do PT, José Dirceu, encerrou sua fala com um viva a unidade da esquerda. A manifestação política, iniciada às 17h50, encerrou-se às 19h45. O auge do movimento ocorreu às 18h25, segundo a PM.
A manifestação era composta por pessoas que saíram em marcha de várias regiões do Estado. Eles protestavam contra o governo FHC e pediam a realização de reforma agrária, entre outras reivindicações.


