Ativistas temem o uso de hormônio em vacas leiteiras da Nova Zelândia
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 23 de junho de 1999
Por Anil Netto, da IPS (assinatura obrigatória) 
Penang, Malásia (AE-IPS) - O governo da Nova Zelândia analisa a liberação do uso de hormônio de crescimento na criação de vacas leiteiras do país. Porém, ativistas da ásia advertem que tal medida representaria um perigo para a saúde animal e humana.
Os ativistas anunciaram que boicotariam os produtos lácteos da Nova Zelândia se o governo aprovar o uso do hormônio de crescimento bovino (rBGH) - conhecido também como somatotropina bovina - para a criação de vacas leiteiras.
O rBGH aumenta em várias semanas o período e a produção de leite. No entanto, o hormônio provoca problemas de saúde às vacas. Os seres humanos que consomem alimentos derivados de seu leite correm o risco de contrair enfermidades graves, incluindo câncer, alertam os ativistas.
A Oficina de Remédios para Animais (organismo neozelandês do qual participam produtores de medicamentos para animais, veterinários e criadores de gado) tomará uma decisão definitiva sobre o uso da rBGH no final deste ano.
A decisão inquieta os ativistas da ásia, onde os produtos lácteos da Nova Zelândia são muito populares devido à sua imagem de "puros e ecológicos" - que ganhou maior destaque após o desastre de Chernobyl, na década de 80.
As exportações de produtos lácteos da Nova Zelândia para a ásia oriental aumentaram para US$ 689 milhões, enquanto que os embarques realizados para a região norte da ásia chegaram aos US$ 333 milhões no período de 1996-97.
A América Latina e Europa também são grandes consumidores de produtos lácteos neozelandeses, depois da ásia.
O governo neozelandês também pressiona a Oficina, para que o órgão examine todas as possíveis consequências comerciais antes de tomar uma decisão.
"O governo deverá ter em conta as preocupações dos asiáticos ao rBGH, já que existe o perigo de perder parte desse mercado", observou Meriel Watts, vice-presidente da Associação de Solo e Saúde da Nova Zelândia, uma organização de proteção ao consumidor e defesa do meio ambiente.
"Por outro lado, também é possível que os Estados Unidos imponham sanções comerciais se o país não aprovar a aplicação do hormônio", explicou.
No entanto, os ativistas sustentam que o problema supera as questões comerciais. "Este não é um assunto comercial e sim um problema de segurança alimentar e de saúde pública", insiste Jennifer Mourin, da rede de Ação contra os Pesticidas, cuja sede para ásia-áfrica fica na Nova Zelândia.
"Temos o direito de saber se os alimentos irão conter substâncias que poderiam ser danosas para a saúde e temos o direito de não comprar produtos manipulados geneticamente", afirmou Mourin.
Até agora, os Estados Unidos são o único país industrializado que aprovou o uso do rBGH, um produto da multinacional norte-americana Monsanto. O governo do Canadá avaliou durante um longo tempo o informe sobre o hormônio e acaba de proibir seu uso devido aos problemas de saúde que causa nos animais.
A União Européia impôs uma moratória sobre o uso do rBGH até o final de 1999 e agora considera a possibilidade de extendê-la. Os veterinários da Alemanha negaram-se a administrar o rBGH nas vacas, argumentando que isso seria uma violação ao código de ética profissional que os proíbe de causar danos de forma intencional aos animais.
Os estudos realizados mostraram que as vacas tratadas com o rBGH tiveram uma incidência maior de infecção nas tetas ("mastitis") que as demais e também sofreram graves problemas de reprodução, transtornos digestivos, danos nas patas e dores persistentes. Além disso, o tempo de vida do animal foi bastante reduzido.
"Logo depois de quatro a cinco anos de grande produção de leite, os animais teminam como carne de hamburguer", afirmou o doutor K. Balasubramaniam, assessor farmacêutico da Oficina Internacional do Consumidor da ásia-Pacífico, em Penang.
Os especialistas temem que o leite acabe contaminado com os fortes antibióticos e outros medicamentos utilizados no tratamento das diversas enfermidades que sofrem as vacas criadas com o hormônio rBGH.
Além disso, descobriu-se que o leite dos animais tratados com rBGH possue uma concentração entre duas e dez vezes mais de IGF-1, um poderoso hormônio de crescimento - similar à insulina - que é produzida naturalmente pelos mamíferos, inclusive os seres humanos.
A maior quantidade de IGF-1 está relacionada com o aumento de câncer de mama, cólon e próstata. Investigadores da Administração de Alimentos e Medicamentos dos Estados Unidos (FDA) informaram que a pasteurização não destrói o IGF-1. Assim, o leite das vacas tratadas com rBGH, contribui para aumentar a concentração do hormônio em quem consome.
Isso porque se o IGF-1 alojar-se no intestino humano pode vir a causar câncer de cólon ou atravessar a parede intestinal e aumentar a quantidade de hormônio no sangue, o que elevaria o risco de câncer da mama ou da próstata.
A FDA admitiu também que a administração de rBGH nas vacas poderia aumentar a quantidade de pus e bactérias que tem no leite.
"Os problemas que podem causar o leite produzido pelas vacas tratadas com o hormônio são demasiadamente graves para permitir a sua venda", sustenta a bióloga molecular Angela Ryan e a biofísica especialista em genética Mae-Wan Ho, ambas da Universidade Aberta de Milton Keyes, na Inglaterra.
As cientistas enviaram uma carta ao ministro de Alimentos, Fibras e Biosegurança da Nova Zelândia, John Luxton.
A aprovação do rBGH nos Estados Unidos também provocou controvérias. Alguns cientistas norte-americanos ressaltaram que vários funcionários da FDA, de quem dependia a aprovação do uso do hormônio de crescimento e a etiqueta de advertência das embalagens de leite, trabalharam anteriormente na Monstanto - que investiu milhões de dólares no desenvolvimento do hormônio.
O doutor Samuel S. Epstein, da Universidade de Illinois, disse em 1996 que os norte-americanos estavam sendo submetidos a uma "experiência".
"O problema dessa experiência é que beneficia apenas um pequeno setor da indústria agroquímica, porém, não resulta em benefícios para os consumidores. Além disso, na realidade, a experiência coloca em risco a saúde de toda a população", advertiu.
Os ativistas por alimentos saudáveis na ásia asseguram que a opinião pública da Nova Zelândia não está informada sobre a discussão. "Se os consumidores soubessem, exigiriam a proibição do rBGH", garantiu Meriel Watts, da Associação de Solo e Saúde da Nova Zelândia.


