Maria das Graças se curou de uma forte depressão depois que se tornou voluntária. Delcínio melhorou das sequelas de um acidente vascular cerebral (AVC) quando começou a fazer pintura em madeira. Rita venceu a depressão com a ajuda das agulhas de tricô. Para Elisabete, o alívio de dores nas costas e um controle mais efetivo da hipertensão vieram com a prática da yoga.
O que essas pessoas têm em comum é óbvio - melhoraram de problemas de saúde com atividades que nada têm a ver com tratamentos médicos. Mas, o que os mais céticos poderiam tratar como mera coincidência, tem sido considerado pelos médicos como uma forma efetiva de tratamento, principalmente para aquelas doenças com sintomas associados a fatores emocionais, as psicossomáticas. O próprio Sistema Único de Saúde (SUS) já promove programas de reabilitação que incluem atividades artesanais - o paciente ganha mais auto-estima e fortalece o sistema imunológico.
O neurologista e psicoterapeuta Antonio Carlos Costardi, que periodicamente vem a Londrina ministrar palestras sobre a relação entre pensamentos, sentimentos e desenvolvimento de patologias, explica que as doenças físicas podem apresentar sintomas associados a fatores emocionais. ''Fatores que ou reforçam os sintomas físicos ou os mantém, quando não são a própria causa das doenças'', afirma.
Assim como sintomas depressivos, segundo o médico, acabam por trazer alterações no sistema imunológico das pessoas, emoções como a raiva e ressentimentos constantes podem desarmonizar o equilíbrio físico, emocional, nutricional e funcional de cada pessoa. ''Os estados de ansiedade também contribuem com a desarmonização dos sistemas nervoso, endócrino, digestivo e cardiocirculatório, sendo muitas vezes responsável por inúmeras doenças'', afirma.
Por isso, só o fato da pessoa executar uma atividade ocupacional, faz com que ela desvie a atenção que estava concentrada na doença. ''E muitos dos sintomas desaparecem ou melhoram. A pessoa deixa de se autoflagelar e passa a adotar uma postura mais amorosa consigo mesma e com os outros'', ressalta Costardi.
A psiquiatra Maria Lúcia Maranhão Bezerra, da regional da Associação Brasileira de Medicina Psicossomática (ABPM), em Curitiba, ressalta que, quando o ser humano se dedica a criar algo através de atividades artísticas ou lúdicas, aspectos saudáveis do narcisismo afloram, causando uma ''paixão'' por si mesmo e desejo de que os produtos sejam recebidos, acolhidos e apreciados por outros. ''O prazer da comunicação e da tranquilidade são um estado mental, mas também bioquímico e fisiológico, o que explica as melhoras físicas'', aponta.
Apesar de todo estado mental corresponder a um estado biológico e vice-versa, Maria Lúcia ressalta que ainda há muita dificuldade, tanto de médicos, como de leigos, para se pensar no ser humano como uma integração corpo-mente. ''Pensamentos ruins, solidão, auto-estima muito baixa merecem todo interesse médico. Uma pessoa pode estar numa conjuntura pessoal preocupante, que merece cuidados, mesmo que não esteja 'doente'', avalia.
Para Costardi, atividades lúdicas ou artísticas podem ajudar a melhorar qualquer quadro clínico. ''Porém, as doenças de caráter crônico e as que têm por base os sintomas psicossomáticos, apresentam melhoras mais significativas''.

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