Atentos aos olhos dos bebês
PUBLICAÇÃO
domingo, 24 de outubro de 2004
Maigue Gueths<br>Equipe da Folha 
Curitiba- Observar com cuidado o olho do bebê para verificar a existência de alguma mancha, um brilho diferente ou falta de atenção a movimentos externos. Desde os primeiros dias de vida do bebê, essa prática dos pais é de fundamental importância para a detecção de sérias doenças que afetam a visão de crianças e que, se não diagnosticadas e tratadas precocemente, podem resultar em perdas irreversíveis para a visão.
Uma manchinha branca na pupila, por exemplo, pode ser sinal de uma catarata congênita. Um reflexo branco no olho da criança, semelhante ao efeito de um farol de carro direto sobre os olhos de um gato e que aparece em fotografias, pode ser um indício de retinoblastoma, um tumor nas células da retina. Bebês que nasceram antes dos nove meses de gestação e permaneceram em Unidade de Terapia Intensiva (UTI) Neonatal necessitam de mais atenção, pois estão sujeitos a descolamento de retina e até a cegueira total.
''Na hora de amamentar, a mãe pode olhar bem no olho da criança. Nas primeiras semanas de vida o bebê vê tudo embaçado, mas mesmo assim ele procura o rosto da mãe'', explica a oftalmopediatra Ana Tereza Moreira. Responsável pelo setor de Oftalmologia Pediátrica do Centro de Excelência em Oftalmologia Professor Carlos Moreira, com sede em Curitiba, ela conta que o órgão desencadeou a campanha ''A visão do seu filho - quando se preocupar'', que desde a semana passada está realizando palestras com objetivo de esclarecer os pais sobre a importância da detecção precoce dos problemas da visão.
A catarata congênita é a maior causa de cegueira na infância. Mundialmente, sua incidência é de 0,4% ou 1 caso para cada 250 neonatos. Trata-se de uma incidência relativamente alta se comparada ao retinoblastoma o tumor maligno mais comum na infância que acomete 1 a cada 18 mil nascidos vivos. No Brasil, esse tipo de catarata tem uma incidência de 5,5% a 12% dos casos de cegueira infantil. Mas o dado mais importante vem da Organização Mundial de Saúde: 10% a 40% dos casos evitáveis de cegueira na infância foram causados por catarata congênita.
A catarata congênita acontece quando o cristalino do olho vai ficando opaco, com perda progressiva da visão. Durante as primeiras semanas de vida a criança só enxerga vultos. ''Esse olhar vago, no entanto, já permite que a mãe tenha condições de perceber se o bebê apresenta uma manchinha esbranquiçada nos olhos'', diz a oftalmopediatra. Para visualizar, ela recomenda que os pais coloquem uma luz em direção ao olho da criança. Pode ser uma lanterna. Se houver uma mancha esbranquiçada na pupila, deve-se procurar o pediatra para encaminhamento a um oftalmologista.
O tratamento é cirúrgico, para retirada do cristalino. A criança, então, terá que usar óculos ou lentes de contato em substituição ao cristalino. A colocação de uma lente intraocular artificial, como é feito em cirurgias de adultos, só e realizada após três anos de idade. A oftalmopediatra adverte, no entanto, que para ter uma boa acuidade visual, o ideal é fazer a cirurgia entre o primeiro e terceiro mês de vida.
Outro problema que pode ser detectado é a retinoblastoma, um câncer ocular originário das células da retina, doença genética decorrente da mutação de um gene localizado no cromossomo 13. O sinal mais claro aparece em fotografias da criança, cujo olho fica com um brilho pupilar branco, similar ao olho de gato iluminado por um farol de carro. ''É um tumor muito grave, que vai tomando conta do olho, vai para o cérebro e leva a óbito'', diz, ressaltando que o diagnóstico precoce é importante para que se consiga conter o tumor a tempo.
Ana Tereza Moreira adverte, ainda, sobre os riscos para bebês que nascem prematuros. O tratamento à base de oxigênio puro usado na UTI Neonatal obtêm sucesso para manter os bebês vivos, mas pode resultar na cegueira. O bebê também pode ter deslocamento da retina. Isso ocorre porque a retina ainda está imatura e, por isto, suscetível aos procedimentos clínicos necessários. O recomendável é que bebês prematuros passem por um exame de vista na quarta semana de vida. O exame deve ser repetido até a 20 semana de vida do bebê, para evitar que o quadro clínico evolua e provoque a cegueira irreversível.


