Atentado ao Riocentro foi feito por 2 grupos militares, revela Cruz
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quarta-feira, 14 de abril de 1999
Por Wilson Tosta 
Rio, 15 (AE) - O general da reserva Newton Cruz vai revelar, em livro de memórias, uma nova versão para o atentado do Riocentro, mais de 17 anos após o episódio. Segundo Cruz, as duas explosões naquela noite de 1981 - uma, na casa de força, outra, no Puma, em que morreu o sargento Guilherme do Rosário - foram provocadas por dois grupos militares que agiram independentemente um do outro e sem vínculos superiores. Todos teriam a mesma origem: o Destacamento de Operações de Informação/Centro de Operações de Defesa Interna (Doi-Codi), órgão de repressão política.
"Nunca houve aquela história de jogar bomba em 10 mil pessoas no show", disse, por telefone, de Brasília. O general afirmou que um major, cujo nome não revelou, soubera que integrantes do Doi-Codi queriam chamar atenção explodindo a bomba perto do espetáculo promovido pela oposição no Riocentro. O oficial, disse Cruz, mandou que os militares detonassem o petardo na casa de força, longe da multidão, para evitar feridos. Rosário e o capitão Wilson Machado não estavam na reunião em que a ordem foi dada e agiram em outro ponto, também longe do público. A explosão acidental matou o sargento e feriu o cúmplice dele.
No livro "Cassado e Caçado por Amor à Pátria", Cruz pretende desmentir que tenha havido uma conspiração envolvendo integrantes da cúpula das Forças Armadas em Brasília para provocar um banho de sangue no Riocentro e levar a um fechamento político. O que aconteceu, de acordo com o general, foi uma ação isolada de grupos ligados à repressão política, que agiram por conta própria. "Acho profundamente impatriótico pensar em abrir o caso Riocentro agora", disse. "Eles queriam apenas marcar presença, como marcaram outras vezes; quantas bombas foram jogadas em bancas de jornais, sem matar ninguém?" Como outras histórias contadas no livro, o Riocentro surgirá a propósito das acusações que sofreu de ter vinculação com o episódio.
Cruz chegou a processar um jornalista que o acusou de, após o atentado, ter procurado o então presidente João Baptista de Oliveira Figueiredo e assumido a responsabilidade pela explosão.
Radicado na capital federal há cerca de dois meses para cuidar dos problemas de saúde da mulher, Lenir, Cruz tem dedicado-se a remexer os arquivos e a própria memória para reconstituir os principais acontecimentos da vida. "Não quero fazer história", disse o militar, que afirma pretender, com as memórias, desmentir acusações mentirosas sofridas a partir do início dos anos 80. A idéia de fazer o livro surgiu em 1992, logo depois que ele foi absolvido da acusação de matar Alexandre Von Baumgarten, mas foi abandonada.
"Retomei o trabalho há mais ou menos um mês", contou. Dos episódios narrados por Cruz, constará o da carta anônima enviada ao presidente Ernesto Geisel, em 1975, por grupos da linha-dura, ironicamente acusando o então futuro comandante militar do Planalto de ligações com a esquerda. Na época, Cruz era coronel e estava para ser promovido a general-de-brigada - a carta era uma tentativa de abortar a promoção. Cruz vai reproduzir a mensagem e falar dos governos Geisel e Figueiredo - deste último, declara-se amigo e admirador. "O Geisel governou com o AI-5 (Ato Institucional número 5); o Figueiredo já entrou sem ele." Cruz também quer desmentir as acusações de que teria participado de conspirações golpistas e atacado com chicote carros que participavam de um buzinaço em Brasília, em 25 de abril de 1984. Naquela noite, era votada a emenda das Diretas-Já para presidente, e ele, então comandante militar do Planalto, executava medidas de emergência decretadas pelo governo. "Teve um sujeito que escreveu que me viu jogando bomba em um colégio"
afirmou. "Viu coisa nenhuma!" Quem esperar revelações sobre tortura, contudo, vai decepcionar-se com o livro. "Não vou denunciar nada do que soube funcionalmente", afirmou.
"Jamais na minha vida vou faltar com a ética; um homem de informações também tem a sua ética." Ele afirmou que o Serviço Nacional de Informações (SNI), cuja agência central chefiou, nunca participou de torturas. "O que apurei, encaminhei a quem de direito, e, aí, acabou o trabalho do homem de informações." Cruz afirmou ser contra a tortura, que, disse, se dá algum resultado "pequeno" a curto prazo, atinge depois o torturador, que se iguala ao criminoso e se desmoraliza.
Cruz também pretende contar detalhes sobre a candidatura ao governo do Rio, em 1994, e a frustrada tentativa de concorrer à prefeitura carioca, em 1996. "No fim (em 1996), o presidente do partido resolveu apoiar outro candidato, que dava cargos e dinheiro", contou. Ele vai reafirmar que votou no presidente de honra do PT, Luiz Inácio Lula da Silva, no segundo turno em 1989 e que não votou no presidente Fernando Henrique Cardoso.


