São Paulo, 21 (AE) - A dona de casa Maria Luzia, de 43 anos, mãe de oito filhos, foi hoje devolver um deles à Febem. R.
de 16 anos, tinha fugido do Complexo da Imigrantes no dia 12, chegou em casa de madrugada e disse: "Aqui estou, mãe, são e salvo." Maria Luzia ficou feliz. Tinha passado o dia na porta da instituição, desesperada, sem saber se ele estava vivo ou morto. Estava vivo, graças a Deus. Mas na manhã do dia seguinte voltou a aprontar.
R. é viciado em crack, anda sujo, maltrapilho, em más companhias. Algumas delas já estiveram na casa de Maria Luzia, ameaçaram o garoto com um revólver na cabeça. Tentando fugir desse castigo, ela mudou com toda a família, duas vezes, para o interior. Já buscou tratamento para o filho. Até a programa de TV foi em busca de ajuda. "No dia da fuga a gente ficou lá na porta, enquanto os meninos fugiam pelo mato, a polícia atrás: que medo!"
Maria Luzia ficou três dias com aquela dúvida na cabeça. "Se deixassem eu mesma botava algemas nele e o prendia em casa, só para garantir que estaria a salvo." Dói vê-lo no estado em que fica, quando se droga. Uma vez, "surfando" num trem, R. recebeu uma descarga elétrica e desmaiou. Acabou decidindo levar o filho de volta para a Febem. Não foi fácil. Primeiro ela tentou, por telefone, que fossem buscá-lo. Negativo. Pediu na delegacia do bairro onde mora, em Diadema. Foi ao Conselho Tutelar.
Longa viagem - Hoje Maria Luzia pegou o filho pela mão e veio para São Paulo. Na Imigrantes, o funcionário da recepção alegou que já tinha dado baixa nos papéis. Orientada a ir ao SOS Criança, no Brás, lá também R. não pôde ficar porque é infrator.
Finalmente o problema foi resolvido no Fórum das Varas Especiais, depois de horas. No fim da tarde, R. seguiu, em um ônibus, de novo para a instituição, com outros menores.
O diretor do Complexo da Imigrantes, Jorge Guedes, que assumiu o cargo há dois dias, considerou "uma imbecilidade" a atitude dos funcionários de não receber o garoto. "É uma burocracia desnecessária", afirmou. "A mãe esteve aqui e precisaria ser atendida na hora e não ser encaminhada para outro local."
A juíza Mônica Ribeiro de Souza Paukoski, responsável pelo Departamento de Execuções da Infância e Juventude, considerou "completamente irregular" a recusa do adolescente pela Febem. "Têm obrigação de receber porque existe ordem judicial de internação."
Os problemas de R. com as drogas começaram por volta dos 10 anos. Ele sumia da escola, depois reaparecia. O pai se zangava, os irmãos também, e Maria Luzia ficava no meio. Deixaram Diadema, tentaram viver em Ribeirão Preto e Campo Limpo Paulista. Em junho, R. foi para a Febem por causa de um furto, ficou em liberdade assistida. Não cumpriu. Acabou interno. "Meu menino não é periculoso", garante a mãe, chorando. "Mas se fica na rua vai acabar morto."
Maria Luzia sabe que a Febem não é um bom lugar para o filho. "Não é nenhum hotel cinco estrelas..." Sabe que ele não vai receber tratamento, o que acha errado. "Mas lá na rua ele estava correndo mais risco, sendo acusado por um pessoal da pesada de ter roubado coisas, com arma na cabeça, na minha porta
na minha frente", diz. "É duro, mas alguma coisa eu tinha de fazer."

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