São Paulo, 27 - A adoção do "viés neutro" teria a desvantagem de praticamente engessar o juro até 1º. de setembro - quando ocorre a próxima reunião do Copom - podendo travar ainda mais a economia que tenta engatinhar. Por outro lado, o "viés neutro" sinalizaria uma posição mais conservadora e tecnicamente menos arriscada do Banco Central, principalmente, ante à turbulência externa e também do mercado doméstico onde a temperatura sobe e extrapola questões econômicas, resvalando pela área social que ameaça entrar em ebulição.
É ingênuo acreditar que o investidor internacional despreza o grito da rua, ainda mais quando ele vem acompanhado de incontáveis reivindicações. Ontem foi um dia atípico, mas que não chegou a surpreender pelo tom e sim pela súbita concentração de fatos. Entre os destaques que possivelmente terão desdobramentos: 1) A decisão da Força Sindical de organizar um acampamento de trabalhadores da Ford (Ipiranga) em frente ao prédio que representa o Ministério da Fazenda em São Paulo. A concentração de uma centena de trabalhadores pode durar até quinta-feira, quando será editada a nova "MP da Ford" diminuindo os subsídios ou incentivos que a montadora receberá para instalar-se na Bahia
No âmbito das negociações com o objetivo de preservar empregos, as lideranças sindicais não foram exatamente felizes. Reuniram-se no Rio com o ministro do Trabalho, Francisco Dornelles, mas não conseguiram do ministro o apoio necessário para que a construção da fábrica da Ford na Bahia impeça demissões na montadora em São Paulo e São Bernardo. Hoje, o líderes sindicais devem encontrar-se com o presidente da Ford do Brasil, Antonio Maciel Neto, enquanto o deputado Luiz Antonio Medeiros (PFL-SP) tenta buscar apoio junto ao presidente do Senado, Antônio Carlos Magalhães (PFL-BA).
2) Caminhoneiros organizados pelo Movimento União Brasil Caminhoneiro iniciaram paralisação em importantes rodovias do País. Destaque especial foi dado ao movimento nas estradas do Paraná, que deve afetar os embarques de exportação de açúcar. O comando do movimento pretende sustentar a paralisação até o próximo sábado. As reivindicações vão desde a elaboração de uma tabela de fretes pelas Confederações Nacionais dos Transportes, da Indústria, do Comércio e da Agricultura para evitar que os fretes fiquem sujeitos à oscilação da demanda, até redução da tarifa de pedágio e desconto de pontos por infração ao Código Nacional de Trânsito.
3) Integrantes do Movimento dos Sem-Terra (MST) participaram de um ato de protesto contra a política de privatização do governo em frente à sede da Petrobras, no Rio. O ato deveria marcar o início de uma Marcha Popular do Brasil, que vai correr 1.580 quilômetros até Brasília e com previsão de chegada em outubro.
4) Os prefeitos sob ameaça de intervenção do governo do estado de São Paulo em suas administrações, pelo não pagamento de precatórios judiciais, anunciaram uma reunião para discutir o assunto. Segundo a Associação Paulista de Municípios o encontro deve ocorrer amanhã.
5) Os servidores públicos começam a reagir ao Programa de Demissão Voluntária (PDV), que deve ser formalizado na quinta-feira pelo governo federal, considerando a iniciativa um ato de "subserviência ao FMI". O Sindicato dos Trabalhadores do Serviço Público Federal pretende aproveitar a reunião plenária da Confederação Nacional do Serviço Público Federal, marcada para sexta e sábado (30 e 31) e propor uma greve geral do funcionalismo por tempo indeterminado e reposição salarial de 55%.

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