São Paulo- O Brasil pode ter, até o fim do ano, sua primeira linhagem de células-tronco embrionárias humanas. A previsão é da geneticista Lygia da Veiga Pereira, da Universidade de São Paulo (USP). Linhagem é uma população de células-tronco embrionárias capazes de replicação in vitro, oriundas das células obtidas de um único embrião. ''Já estamos trabalhando nessa pesquisa há cerca de dois anos'', afirma Lygia. ''Esperamos concluí-la até dezembro.'' Por enquanto, 17 países possuem suas próprias linhagens.
Atualmente, os pesquisadores brasileiros utilizam matrizes estrangeiras, especialmente norte-americanas, para desenvolver suas pesquisas. Lygia explica que a principal vantagem de uma linhagem nacional é a ''autonomia'' conquistada pela comunidade científica. ''Se as linhagens utilizadas no País forem consideradas impróprias para uma determinada pesquisa, não importaremos. Criaremos novas linhagens'', aponta.
Lygia teve um projeto de pesquisa aprovado no processo seletivo definido pelo edital conjunto do Ministério da Saúde e do Ministério da Ciência e Tecnologia, de abril de 2005. Recebeu R$ 250 mil e a incumbência de desenvolver uma tecnologia nacional para produzir linhagens brasileiras de células-tronco. ''Mesmo com a incerteza gerada pela ação direta de inconstitucionalidade, o governo federal decidiu investir nessas pesquisas'', afirma. Os ministérios desejam que a pesquisadora divulgue para outros cientistas brasileiros o conhecimento adquirido no seu laboratório sobre a criação de linhagens de células-tronco embrionárias humanas.
A geneticista espera que, com o fim da insegurança jurídica, a iniciativa privada também comece a investir nas pesquisas. Afirma, no entanto, que nenhuma empresa manifestou interesse até agora.
Outros pesquisadores não esperaram a decisão do Supremo Tribunal Federal (STF). O biólogo Stevens Rehen, do Laboratório de Neurogênese e Diferenciação Celular da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), recebeu R$ 200 mil do governo federal para pesquisas relacionadas à produção de neurônios. ''Já realizamos testes aplicando neurônios obtidos a partir de células-tronco embrionárias humanas em camundongos com Parkinson e com lesões na medula'', afirma.
Antonio Carlos de Carvalho, pesquisador do Instituto Nacional de Cardiologia (INC) no Rio, tem utilizado células-tronco embrionárias humanas para produzir células cardíacas. Pesquisadora do Instituto do Coração (Incor) em São Paulo, Deborah Schechtman afirma que tem adotado a mesma linha de pesquisa com cobaias. ''Agora, vamos para a fase da pesquisa com células-tronco embrionárias humanas'', afirma.
O governo federal pretende investir R$ 21 milhões no estudo de terapias celulares entre 2008 e 2009, sendo R$ 11 milhões para pesquisas com células-tronco. ''Não há nada, nenhum recurso definido'', diz Hans Dohmann, diretor-geral do INC, sobre o porcentual da verba que poderia ser destinado ao estudo com embriões.
O investimento federal em pesquisa científica para a área de saúde foi discutido, na Oficina de Prioridades de Pesquisa do Ministério da Saúde. Os recursos virão da Saúde e do Ministério da Ciência e Tecnologia e serão canalizados por editais das agências federais de fomento.

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