Ataques despertam histeria antiocidental na China Do correspondente Gilles Lapouge
Paris, 07 (AE) - No mesmo dia em que o primeiro-ministro chinês, Zhu Rongji, iniciou uma viagem de nove dias aos Estados Unidos, o Yangchen Evening News, de Cantão, publicou uma foto de Bill Clinton com o bigodinho de Adolf Hitler.
Os bombardeios da Sérvia por aviões da Otan despertaram na China uma histeria antiocidental que reflete perigosamente uma histeria semelhante eclodida na Rússia.
Tendo Kosovo como pretexto, observamos que assim se estabelece uma solidariedade entre Pequim e Moscou. De resto, o presidente chinês, Jiang Zemin, que esteve na Europa na semana passada, já havia esboçado os contornos de uma nova geopolítica.
Denunciando a "diplomacia das canhoneiras", que seria a única válida para Washington, o presidente chinês não chegou a anunciar publicamente o eixo Pequim-Moscou.
Nos dois casos a opinião pública seguiu, ou até mesmo precedeu
essa evolução dos dirigentes chineses e russos. A despeito da visita triunfal de Clinton, em junho, à China jamais deixou de existir a desconfiança e o medo dos EUA.
As lições sobre os direitos do homem dadas por Washington a Pequim estão sendo lembradas, com cruel ironia, pelos jornais chineses. Eles perguntam se direitos humanos seria esmagar um país minúsculo, reduzido a ruínas pelas bombas de outros 19 países.
À luz dessas bombas, Pequim vê os EUA como um diabo. Tudo que vem de lá é nefasto e antichinês: Congresso, CIA, igrejas cristãs, comunidade judaica, lobbies de Taiwan, direitos do homem e até Hollywood.
Uma preocupação marca os comentários: a Otan (EUA) se teria arrogado o direito de invadir um terceiro país e bombardear uma de suas províncias, sem aprovação da ONU. O que seria uma ingerência escandalosa. E o que impediria uma ação da Otan no Tibete?
Na Rússia, a opinião pública é favorável aos sérvios, um povo tanto eslavo quanto cristão, historicamente muito ligado ao russo. Milosevic apostou nessa solidariedade invocando até a religião: decretar trégua na Páscoa ortodoxa só poderia mesmo sensibilizar os ortodoxos russos. (Um paradoxo e cinismo, esse ateu comunista, que é Milosevic, cobrindo-se com o manto dos popes!)
Na Rússia esse painel apresenta cores ainda mais vivas. Há muitos anos Boris Yeltsin encontra-se numa situação delicada. Ele é o homem dos americanos, a subestação do liberalismo, do além-Atlântico e do FMI. E hoje a questão é a seguinte: a precariedade da situação de Yeltsin, que se explica por seu fracasso econômico, sua saúde abalada, sua indiferença e os escândalos que envolvem sua família e sua guarda próxima, tudo isso acrescido à ação de seus amigos americanos num país amigo como a Sérvia, poderia provocar o impeachment do presidente ou até um golpe de Estado. A quem beneficiam os ataques da Otan à Sérvia e o naufrágio de Yeltsin? Sem dúvida, aos comunistas.





