Ataques da Otan não afetam economia européia Do correspondente Gilles Lapouge
Paris, 27 (AE) - A moeda comum européia, o euro, passa por uma ligeira perturbação, mas a guerra de Kosovo lhe é indiferente. É preciso ver aí, sobretudo, o efeito de um período de adaptação da nova unidade monetária aliada à exuberância da produção norte-americana. No que se refere a Kosovo, todos os analistas estão de acordo: o conflito não afetou a economia francesa e tampouco a européia.
Estamos longe dos efeitos resultantes da Guerra do Golfo em agosto de 1990. Aquilo foi um terremoto que abalou todo o mundo ocidental. A invasão do Kuweit pelo Irã e a reação brutal dos aliados detonaram uma grave crise econômica.
Tomemos o caso da França: o ano de 1989 foi excelente (4,5% de crescimento); o ano de 1990 foi bom (2,8%); mas 1991 foi desastroso: o crescimento despencou para 1,1%. Portanto, a retomada que vinha se esboçando há dois anos e começou, desde 1986, a eclipsar o primeiro "choque do petróleo" foi por terra abaixo com a guerra do Kuweit.
Não se vê nada parecido agora. A guerra de Kosovo não abalou a economia européia (exceto a italiana, onde se nota uma ligeira queda no consumo de utilidades domésticas, bem como uma baixa no turismo).
Como explicar os sustos de 1990 e a tranquilidade de 1999? A guerra do Kuweit era invisível, misteriosa, estranha, perturbadora; a de Kosovo, ainda que seja ela também muito misteriosa, é visível. Pode-se acompanhá-la a cada instante. Há uma prestação de contas, de informações. As notícias não estão restritas apenas a CNN.
Pode-se avaliá-la pelo que se vê na TV: horror e tragédia.
Paradoxalmente, essa presença permanente do horror é tranquilizadora.
Sabe-se aonde se vai. Nada fica escondido de nós. Pode-se ver a guerra de frente, vigiá-la, medi-la e avaliá-la. Isso é menos inquietante do que aquela guerra de ficção científica ou de fantasmas que foi a guerra do Kuweit.
Uma outra diferença: o Kuweit tinha o petróleo. Os europeus temiam que o conflito resultasse num novo choque do petróleo, pior do que o primeiro. Hoje, pelo contrário, não há nenhum risco econômico que esteja diretamente relacionado com a guerra de Kosovo. Isso é tranquilizador.
Além do mais, desde o começo, os estrategistas da Otan prometeram (desastradamente?) que jamais haveria manobras terrestres. A guerra ficou, portanto, repentinamente, delimitada e seu custo, modesto.
O caso será completamente diferente se a Otan, imobilizada por causa de suas estratégias irreais, tiver de passar ao combate no solo. O quadro ficará negro.
Uma operação em terra mobilizaria 300 000 homens. O custo ficaria entre 60 e 90 bilhões de euros, sendo que três quartos desse total caberia à União Européia. Os orçamentos europeus ficariam abalados e, mais grave ainda, a isso se ajuntaria o impacto psicológico. Pode-se perder assim de 0,5 a 0,7% do crescimento anual.
Todavia, cogita-se que, apesar dessas cifras, o estrago de uma guerra no solo se daria num tempo determinado. Por quê? Porque, ao contrário do Oriente Médio, os países dos Bálcãs não ocupam um ponto nevrálgico no mundo atual.
A menos que, fique isso bem entendido, os combates no solo não se deteriorem e nem arrastem para a linha de fogo os países vizinhos situados entre a Turquia e a Croácia. Mas, por enquanto
tal perspectiva é irreal.





