Ataque da Otan deixa 15 mortos enquanto Milosevic se abre para mais negociações
Belgrado, 07 (AE-AP) - Bombas de fragmentação da Otan atingiram por volta do meio-dia de hoje (07) uma feira livre e um complexo hospitalar na terceira maior cidade da Iugoslávia, matando pelo menos 15 pessoas e ferindo dezenas.
À noite, Belgrado e muitas outras partes do país voltaram a ficar às escuras.
A agência estatal de notícias Tanjug divulgou que aviões da Otan voltaram a usar bombas de grafite para paralisar o sistema elétrico na noite desta sexta-feira. Testemunhas relataram que um imenso incêndio era visto na direção da principal estação elétrica da capital, Obrenovac.
Segundo a Tanjug, autoridades da defesa civil disseram que pelo menos três comunidades nos arredores de Belgrado - Bezanijska Kosa, Jajinci e Lestaneb - foram bombardeadas esta noite pela Otan. Não foram divulgadas notícias sobre vítimas
Os novos ataques ocorreram depois que o presidente Slobodan Milosevic sinalizou que estava aberto para um duro plano de paz para Kosovo apresentado pela Rússia e potências ocidentais - caso a aliança parasse com os bombardeios.
A aliança levou à frente sua campanha aérea. Intensos disparos de artilharia antiaérea foram ouvidos na noite de hoje em Belgrado depois que as sirenes de advertência soaram e pouco antes da 21h30 (horário local), toda a cidade ficou às escuras.
Podgorica, a capital a menor república iugoslava de Montenegro
também ficou sem energia elétrica.
A Tanjug divulgou na noite desta sexta-feira que "quase toda" Montenegro e muitas cidades da Sérvia - a maior das repúblicas iugoslavas - ficaram sem luz, apesar de o serviço ter sido restaurado em algumas horas mais de uma hora depois.
A Tanjug afirmou que os aviões da aliança haviam usado bombas de grafite similares às que provocaram um blecaute em Belgrado na noite de domingo.
Mais cedo, autoridades em Nis, cerca de 200 km a sudeste de Belgrado, disseram que pelo menos 15 pessoas foram mortas e 60 ficaram feridas quando bombas da Otan caíram no centro da cidade nas proximidades de um hospital, numa feira livre e num parque pouco antes do meio-dia.
Um repórter da ASSOCIATED PRESS, levado ao local por autoridades sérvias, viu toda uma rua devastada nas proximidades da Universidade de Nis. Uma casa foi completamente queimada. Dezenas de outras tiveram as janelas estilhaçadas. Vários carros foram destruídos. Muros estavam com buracos provocados, aparentemente, por estilhaços de uma bomba de fragmentação.
No hospital, carros ainda estavam fumegantes quando os repórteres chegaram.
Nas proximidades, numa feira livre local, três corpos estavam caídos em poças de sangue. O corpo de uma idosa tinha buraco na cabeça. Ela estava carregando cenouras compradas na feira. Outro idoso tinha um ferimento na cabeça e a poucos metros de distância, o corpo de um jovem estava desmembrado.
Explosivos amarelos não detonados estavam espalhados pelo chão. As pessoas eram advertidas para ficarem dentro de casa por causa do perigo de as bombas explodirem a qualquer momento.
"Quando começou, corremos para o porão", disse Smilja Juric, 70 anos. "As pessoas estavam gritando... Um homem ferido caiu no meu quintal. Ninguém veio pegar esse jovem aqui", afirmou ela, apontando para o corpo.
A televisão sérvia transmitiu imagens da canificina logo depois do ataque.
A Otan anunciou ter bombardeado o aeroporto de Nis em duas rodadas de ataques antes do amanhecer de hoje. A aliança informou sobre "substanciais ataques" em Nis, mas não iria confirmar ter atingido o centro da cidade.
O major-general Walter Jertz, conversando com jornalistas em Bruxelas, afirmou: "Eu vi notícias da imprensa sobre isto, com algumas contradições. Mas não posso comentar mais sobre isto porque não quero fazer especulações". Ele disse que a Otan estava investigando as notícias e afirmou que poderia levar dias antes de se ter um resultado.
Em frente do danificado prédio do hospital, o vice-premier sérvio, Milovan Bojic, acusou a Otan de genocídio e questionou como o Ocidente poderia estar buscando a paz.
"Hoje perguntamos a todo o mundo e a todo homem do planeta: como pode esta agressão genocida ser possível apenas um dia depois que o encontro do G-8 decidiu resolver o conflito por meios pacíficos?" afirmou Bojic.
"Isto não é um erro acidental da força aérea da Otan. Isto é um ato intencional para destruir uma nação, um ato de genocídio", disse ele.
As janelas da frente e a entrada do prédio do hospital de patologia foram estilhaçados. O prédio recebeu o impacto maior de um projétil da Otan, poupando outros prédios do complexo hospitalar atrás dele de danos substanciais.
Os últimos ataques ocorreram depois que ministros do Exterior da Rússia e das maiores potências ocidentais concordaram com o esboço de um plano para pôr fim ao conflito. O plano inclui o estacionamento de "efetivas presenças civil e
O plano inclui o estacionamento de "presenças efetivas civil e de segurança internacionais" em Kosovo, uma província da Sérvia.
Muitos detalhes ainda têm de ser trabalhados, e estão planejadas mais reuniões da alta diplomacia. O subsecretário de Estado Strobe Talbott viajará em breve para Moscou para novos diálogos com altas autoridades russas. O ex-primeiro-ministro Viktor Chernomyrdin, enviado especial da Rússia, partirá sábado para um tour europeu que incluirá Belgrado.
Milosevic ainda não aceitou a presença de forças armadas no território iugoslavo, enquanto a Rússia e a Otan interpretam de forma diferente a expressão "presença de segurança".
A Rússia quer que os bombardeios sejam suspensos, enquanto a Otan insiste que os sérvios têm primeiro de parar a repressão contra albaneses étnicos.
Os Estados Unidos querem a retirada total das forças sérvias, enquanto Moscou e Belgrado falam sobre uma retirada parcial.
O general dos EUA Hugh Shelton, comandante do Estado-Maior Conjunto, visitou líderes políticos da Macedônia e os mais de 600 soldados americanos da Otan no país.
Ele disse que as propostas do G-8 não afetarão as ações militares a menos que o presidente Milosevic aceite as exigências da Otan. "A campanha continuará até que Milosevic concorde com os termos estabelecidos pela Otan", afirmou.
Falando em Moscou, o ministro do Exterior russo Igor Ivanov expressou desapontamento com a continuidade dos ataques da aliança. "Se nossos parceiros tivessem aceito nossa proposta de suspensão dos ataques aéreos, teriam sido criadas melhores condições para se adotar uma decisão", disse Ivanov.
O plano esboçado para o fim do conflito tem de ser endossado pelo Conselho de Segurança da ONU. Funcionários do Departamento de Estado disseram que as Nações Unidas terão um papel proeminente na futura força de paz em Kosovo, mas não em operações militares na província.
A Tanjug assinalou hoje uma eventual aceitação do país do novo plano de paz, mas considerou que o processo de negociação pode ser "muito longo". A agência reiterou a posição oficial iugoslava de que a Otan tem primeiro de parar com o bombardeio antes de o plano ser negociado e passado para a ONU. A Tajung afirmou que o acordo era "apenas o início de um longo e complexo processo que irá provavelmente acabar em sucesso".





