A mudança no controle do Aeroporto Governador José Richa, em Londrina, renovou a expectativa do poder público e de representantes do setor produtivo pela construção de uma nova pista de taxiamento, a chamada taxiway. A operação foi concluída no início deste mês, quando o grupo mexicano ASUR (Grupo Aeroportuario del Sureste) assumiu a plataforma aeroportuária da Motiva, que reúne 17 aeroportos no Brasil e outros três terminais no exterior. O negócio teve valor de R$ 5,1 bilhões em participação societária e R$ 12,21 bilhões considerando também as dívidas dos ativos.

Para o prefeito Tiago Amaral (PSD), a troca de concessionária não altera as obrigações estabelecidas no contrato, já que a taxiway não está entre os investimentos previstos. Por outro lado, ele acredita que a experiência da ASUR exclusivamente no setor aeroportuário pode aumentar as perspectivas de avanço da obra.

“O mesmo contrato que já tinha com a Motiva, eles passaram a administrar. Não teve nenhuma alteração, ou seja, não há mudança em relação ao contrato de concessão”, afirmou. Segundo o prefeito, porém, a prioridade da prefeitura em relação à obra permanece.

Na avaliação de Amaral, a ASUR apresenta um perfil mais adequado para a expansão do aeroporto. “A Motiva é uma concessionária especializada no transporte rodoviário, ou seja, asfalto, e não no transporte aéreo”, disse. Já o grupo mexicano tem como atividade central a operação aeroportuária e, com a aquisição, amplia sua presença internacional.

A ASUR informou que acompanha as discussões conduzidas pelo setor produtivo e pelo poder público sobre a possibilidade de implantação da nova taxiway. A concessionária afirmou que tem colaborado com estudos, fornecendo dados e facilitando o acesso às instalações aeroportuárias.

A empresa, entretanto, reforçou que a obra não é uma obrigação contratual. Segundo a administração do aeroporto, “todos os investimentos previstos no contrato de concessão para o Aeroporto de Londrina” já foram executados integralmente.

A posição mantém um dos principais obstáculos para a obra, a necessidade de encontrar uma fonte de recursos para a construção. O projeto executivo da taxiway foi doado ao município pelo empresário Alfons Gardemann e desenvolvido pela MSE Engenharia, com apoio técnico da então Motiva.

Mobilização

Presidente do Ceal (Clube de Engenharia e Arquitetura de Londrina) e integrante da Comissão de Infraestrutura de Londrina, o engenheiro eletricista Marcos Dantas considera que a entrada da ASUR pode dar novo impulso ao projeto. Para ele, a nova pista representa um investimento estratégico, estimado atualmente em cerca de R$ 70 milhões, com potencial para ampliar a capacidade operacional do aeroporto, reduzir custos para as companhias aéreas e aumentar a atratividade de Londrina para empresas e centros de distribuição.

“Acreditamos que o projeto ganhará ritmo e prioridade”, afirmou Dantas. Segundo ele, a Comissão de Infraestrutura, em conjunto com o poder público, prepara uma reunião com a Anac (Agência Nacional de Aviação Civil) para apresentar o crescimento da demanda por passageiros e cargas e reforçar a necessidade da obra.

A expectativa é que a taxiway permita que uma aeronave permaneça em movimentação ou aguarde no sistema de taxiamento enquanto outra utiliza a pista principal. Atualmente, a inexistência de uma estrutura adequada faz com que os aviões precisem utilizar a própria pista de pousos e decolagens para determinadas manobras, reduzindo a capacidade operacional do aeroporto.

O prefeito afirma que pretende abrir imediatamente o diálogo com a nova concessionária. “Nós começaremos com um convite e depois, se for necessário, com uma convocação”, disse. Para Amaral, a discussão deve estabelecer o que a ASUR pretende para Londrina e quais parcerias podem ser construídas. “Eu acredito que vai dar certo, sim, que eles farão essa reunião com a gente e vão se integrar conosco aqui processos também que dizem respeito ao aeroporto”, afirmou.

Projeto

A nova taxiway é uma reivindicação antiga de Londrina. A obra estava prevista no termo de cooperação técnica firmado em 2016 entre o município e a Infraero (Empresa Brasileira de Infraestrutura Aeroportuária), juntamente com uma ampliação da pista principal. A Prefeitura cumpriu sua parte ao desapropriar áreas no entorno do aeroporto, em um processo que consumiu cerca de R$ 50 milhões, mas as intervenções previstas pela Infraero não foram integralmente executadas.

Quando o aeroporto foi concedido à iniciativa privada, em 2021, o novo contrato não incorporou a construção da taxiway prevista no acordo anterior. A então CCR, posteriormente transformada em Motiva, executou obras no terminal e ampliou a pista de pousos e decolagens em 150 metros, mas a nova pista de taxiamento permaneceu fora das obrigações contratuais.

Em dezembro de 2024, o município acionou a Justiça para tentar garantir o cumprimento do acordo de 2016. Posteriormente, a administração Tiago Amaral passou a buscar alternativas para viabilizar a obra sem depender exclusivamente da judicialização. Em 2026, a prefeitura recebeu o projeto executivo doado por Gardemann e iniciou a articulação para obter recursos.

A estimativa de custo passou por diferentes valores durante a elaboração do projeto. Em fevereiro, a Prefeitura trabalhava com uma previsão de R$ 40 milhões; no mês seguinte, a estimativa apresentada pelo município havia subido para R$ 60 milhões. Agora, o Ceal trabalha com uma referência de aproximadamente R$ 70 milhões.

A mobilização pela taxiway ganhou força após a instalação do ILS (Sistema de Pouso por Instrumentos), que entrou em operação no fim de 2025. A nova estrutura é considerada o próximo passo para ampliar a capacidade do terminal, especialmente diante da perspectiva de crescimento da movimentação de passageiros e cargas.

Para Tiago Amaral, o interesse estratégico da ASUR pelo mercado brasileiro e pelo aeródromo de Londrina pode representar uma oportunidade. “Nosso aeroporto é estratégico para essa nova concessionária”, avalia. Segundo ele, conversas recentes com Azul e Latam também reforçaram a percepção de que o terminal londrinense tem potencial de crescimento.

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