Assinar sem ler
O ministro leva o documento, FHC não lê e assina. Pronto: aí estão os ingredientes de mais uma crise política envolvendo o Planalto na construção do Fórum Trabalhista de São Paulo, totalmente alicerçada no superfaturamento.
Não ler e assinar não quero entrar no mérito da questão, que envolve assessores de confiança, praxes burocráticas de tramitação e coisas do gênero é algo que pode nos estimular a pensar sobre situações paralelas vividas em nosso País. Porque muitas pessoas assinam aquilo que não leram, endossam o que não pensaram e preferem simplesmente assimilar o que outros decidiram. Personagens que, segundo a voz do povo, são representados pela maria-vai-com-as-outras.
É como se pairasse no ar a repetição de tradições antigas e ao mesmo tempo estivessem emergindo novas concepções que ainda permanecem incompreensíveis. Vejamos, a propósito, situações vividas ao longo da semana, durante as quais FHC semeou clones por todos os cantos e todas as partes.
Primeiro, o caso de nada menos do que 32 reféns mantidos trancados durante longas quatro horas por três assaltantes, dentro de uma agência bancária em São Gonçalo, Rio de Janeiro. Com o trauma do ônibus da linha 174 na cabeça quando uma professora foi morta pelo bandido e o algoz morreu por asfixia dentro de uma viatura a PM apressou-se em negociar. O final foi feliz, embora tivesse exigido, no local, a presença normalmente rara do comandante-geral da corporação. O final feliz foi garantido com uma advogada da Comissão de Direitos Humanos da OAB saindo abraçada com os bandidos. As vítimas, ainda em pânico, não tiveram amparo de ninguém ao sair. Absurdamente surrealista, esta cena.
Este é um caso onde se pensou por tabela que se convencionou considerar politicamente correta. Claro que a advogada fez isso para nenhum bandido ser morto dentro da viatura policial ou a caminho da delegacia mais próxima. Mas entender-se por preservação de direitos humanos apenas isso, sendo que as vítimas mereciam ali um mínimo de atenção, é não só inverter valores e prioridades. É ser socialmente míope. Faz uma semana que a sociedade se manifestou dizendo que não aguenta mais e deseja paz. Não se diz basta! com posições unilaterais e não se obtém resultados com bandeira branca com posturas sempre antipolícia, sempre pré-delinquente e sempre ignorando a vítima. Deixemos claro: nem sempre a Polícia acerta, ninguém tem direito de justiçar ninguém, mas a vítima não pode ser esquecida. Preocupar-se com um laudo só é fazer como FHC fez: assinou e não leu, deu no que deu, e depois é difícil, senão impossível, tentar explicar.
Segundo, os dez anos de existência do Estatuto da Criança e do Adolescente. Assinar sem ler é acreditar que a legislação específica, teoricamente uma das melhores do mundo, resolveu o problema de quem tem menos de 18 anos. Existem reais motivos para comemorar? A situação dos menores mudou substancialmente de 1990 para cá? Assine embaixo, se quiser. Prepare-se para ser cobrado diante da constatação de que carta de intenções é uma coisa e adoção de medidas concretas, palpáveis, é outra, bem diferente.
Parece que estamos vivendo o momento em que se assina o que não se leu e se diz aquilo que não foi pensado. É impressionante a diferença do blablablá econômico com a realidade sofrida que atravessa o povo brasileiro. Preocupa o faz-de-conta na saúde, na educação, no mercado de trabalho, na postura de autoridades, na falsidade do meio político, na desesperança que ameaça nos sufocar diante dos podres de cada dia. Pacotes, medidas, planos. Tem muita gente, além de FHC, assinando sem ler. Artifícios semânticos, palavras vãs nos remetem para aquilo que poderíamos chamar de bem diferencial. Sonhamos com esses bens uma bicicleta, para a criança; a roupa da moda, para o adolescente; o sonho do carro, para um adulto. Tais bens significam valores. Que são priorizados de acordo com o investimento ético de cada um. Tais bens podem ser exclusivamente materiais. Mas também podem ser dignidade humana, cidadania, respeito ao semelhante, solidariedade, construção da paz. Para mudar a sociedade, não podemos mais assinar sem ler e muito menos falar sem pensar. Basta de maria-vai-com-as-outras. Tenhamos responsabilidade, coerência e personalidade.





