Assessora do BC diz que socorro ao BC foi atípico
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domingo, 02 de maio de 1999
Por Adriana Fernandes e Nelson Breve 
Brasília, 03 (AE) - A ex-chefe do Departamento de Reservas Internacionais do Banco Central Maria do Socorro Costa Carvalho disse, em depoimento à CPI do Sistema Financeiro, que a operação de socorro ao Banco Marka foi autorizada atipicamente na noite do dia 14 de janeiro, admitindo não ser praxe do Banco Central fechar este tipo de operação à noite. Segundo ela, este tipo de operação ocorre durante o horário do pregão. Socorro contou no depoimento que está prestando a CPI do Sistema Financeiro que, em função da tipicidade da operação, a BM&F solicitou ao Banco Central uma correspondência informando que estava autorizando a operação. Esta correspondência só foi enviada efetivamente a BM&F no dia 15 de janeiro.
Para ela, não houve ilegalidade na operação de socorro do BC ao Banco Marka. Segundo Maria do Socorro, a operação teve como base pareceres da área Jurídica do BC que autorizam a participação da instituição no mercado futuro de câmbio. Ela disse que o assessor especial e secretário-geral do Conselho de Política Monetária (Copom), Alexandre Pundek, determinou, por telefone, que fizesse a operação e lhe deu os números. A ex-chefe do Departamento de Reservas contou aos senadores da CPI que obedeceu à determinação mesmo sem ter recebido a ordem por escrito. "Não cumpriria determinação que considerasse ilegal ou incorreta", disse.
Para ela, se o BC não tivesse agido junto ao Marka e FonteCindam, as duas instituições teriam ficado inadimplentes em dois dias. Ela avaliou que o Marka estava muito alavancado e não deveria obter garantias adicionais para sustentar suas posições, depois que a desvalorização cambial ultrapassou 8%. Ela disse que o BC teve que se antecipar aos problemas das duas instituições para que outros bancos não fossem atingidos.
A ex-chefe do Departamento de Reservas Internacionais do Banco Central disse na CPI que no dia 14 de janeiro deste ano foi informada pelo então diretor da área Externa do BC Demosthenes Madureira de Pinho de que o assessor da Presidência do BC e secretário-geral do Copom, Alexandre Pundek, ficaria responsável pela coordenação da operação de ajuda ao Banco Marka.
Socorro disse que teve vários contatos com a Bolsa de Mercadorias e de Futuros e que, mesmo no dia anterior, quando o BC comunicou a mudança do regime cambial, recebeu duas ligações de Paulo Garbato, da BM&F, que demonstrou preocupação com as instituições que estavam "vendidas" no mercado futuro de dólar em função da desvalorização cambial de 9%. Segundo ela, esta foi a primeira informação a respeito de eventuais problemas com instituições financeiras que operavam no mercado futuro.
Ela disse, ainda, que a operação só foi decidida no fim do dia 14 de janeiro, por volta das 20 horas, quando Pundek ligou para informá-la da decisão da diretoria. Segundo Socorro, Pundek disse que já havia conversado com a BM&F e definido que as operações poderiam ser fechadas naquele dia para operacionalizás-la no dia seguinte, "o que não é de praxe", conforme Socorro. Isto porque, segundo ela, as operações são realizadas durante o pregão da BM&F, mas, como o sistema operacional é muito pesado e levaria sete a oito horas para "rodar o programa" (fazer o programa funcionar), a operação não foi realizada naquel pregão.
Maria do Socorro Carvalho declarou, na CPI do Sistema Financeiro, que não conhece o ex-dono do Banco Marka, Salvatore Alberto Cacciola. Ela negou também conhecer o economista Rubem Novaes, apontado como possível intermediário entre suposto informante do Banco Central e o mercado, e os irmãos Luiz Augusto Bragança e Sérgio Bragança. Maria do Socorro disse conhecer o presidente do banco FonteCindam, Luiz Antonio Gonçalves, ex-funcionário do Banco Central.
A ex-chefe do Departamento de Reservas Internacionais do Banco Central contou à CPI do Sistema Financeiro de que forma ficou sabendo da mudança da política cambial, no dia 12 de janeiro de 1999. Ela disse que foi convocada pelos seus superiores - o diretor de Assuntos Internacionais do BC, Demósthenes Madureira de Pinho Neto e o então diretor de Política Monetária, Francisco Lopes - para uma reunião.
Nessa reunião, no dia 12, os dois diretores lhe entregaram uma minuta do comunicado que seria divulgado pelo BC na manhã do dia seguinte, dia 13, informando sobre a alteração no regime de bandas cambiais. Maria do Socorro relatou que, depois da reunião
subiu para o seu gabinete e ficou trabalhando sozinha para resguardar a confidencialidade das informações. Disse que recebeu várias ligações, mas com ninguém falou, a não ser com seus superiores, Demósthenes Madureira e Francisco Lopes.
Relatou ter sido informada da mudança cambial um dia antes, porque era ela que iria implementar a medida. Maria do Socorro relatou ainda aos senadores da CPI que, no final do dia 12, depois das 18 horas, quando o mercado financeiro já estava fechado, ela chamou um funcionário para preparar o texto que seria divulgado na manhã do dia seguinte no Sistacen anunciando a mudança na política cambial.


