Brasília, 23 (AE) - A empregada doméstica E.C.S., de 19 anos, acusou hoje o analista legislativo do Senado Murillo Porto
de 47 anos, de mantê-la por sete meses como "escrava sexual " em uma casa no Lago Sul, bairro nobre de Brasília. A empregada, com marcas de tortura pelo corpo, acusou a ex-mulher de Porto, Ucilane Porto, de 43 anos, de participar de duas das sessões de tortura.
Os dois foram presos em flagrante pela Polícia Militar. Porto disse à delegada da Mulher, Débora Menezes, que é sadomasoquista e os atos praticados tinham o consentimento da empregada. A notícia da prisão de Porto foi recebida com perplexidade no Senado, onde é conhecido por ser um chefe muito exigente. Segundo a delegada, os materiais apreendidos na casa de Porto, incluindo aparelho de dar choques, e as marcas de tortura no corpo da empregada são provas que que houve crime.
E. disse que foi contratada como empregada doméstica há sete meses. Nos primeiros dois meses, segundo ela, Porto lhe dava apenas "tapinhas" pelo corpo. Ela admitiu ter namorado o patrão inicialmente. A empregada disse que aos poucos começou a ser torturada. "Disseram que iam me adestrar como um animal e uma escrava bem submissa", afirmou E., na Delegacia da Mulher de Brasília.
Trêmula, a empregada disse que Porto deixava seu revólver calibre 32 em cima do guarda-roupa sempre que ela ameaçava denunciá-lo. "Ele dizia que se eu quisesse fazer alguma coisa eu não ia conseguir por ele ser importante no Senado." Ela afirmou que teve de assinar uma espécie de "contrato", com cerca de 30 exigências. Uma delas era fazer com que a mulher andasse nua pela casa.
Segundo ela, sempre que não cumpria uma das cláusulas era espancada por Porto que, ao se cansar, era substituído pela ex- mulher. Quando Porto saía, disse a doméstica, ele trancava as portas e a "ameaçava" para que nunca tentasse fugir. A ex-mulher de Porto morava na casa da frente e ele na dos fundos. E. acusa o casal de nunca ter pago o salário de R$ 260 mensais. "Para disfarçar, mandaram duas vezes R$ 50,00 para minha mãe."
A doméstica acusou Porto de obrigá-la a massageá-lo diariamente e a dormir ao seu lado. E. afirmou que seu patrão também a obrigava a buscar com a boca um osso de plástico que ele atirava pela casa. E. afirmou que só não denunciou o patrão e sua ex-mulher por medo de morrer. "Tudo que eu quero é ficar em um lugar seguro", disse. "Quero trocar de Estado."
Choque - A Polícia Militar de Brasília prendeu o casal Porto pela manhã. E. tinha ligado às 5 horas de hoje, segundo ela, depois de uma sessão de torturas na madrugada, em que participou o casal. E. apresentava várias marcas de chicotadas pelo corpo. Segundo a delegada, o laudo da medicina-legal constatou que há várias lesões no corpo da empregada.
Na casa de Porto, a polícia apreendeu vários objetos, entre eles três coleiras de cachoro, "algemas" de couro, mata-moscas, objetos de sadomasoquismo, chicotes, um osso de plástico e um revóver calibre 32. A delegada disse que Murillo não tem porte de arma.
A polícia apreendeu ainda um aparelho de dar choques elétricos e duas bolas de madeira. Foram apreendidas várias fotografias, em que E. aparece nua e amarrada. Porto e sua ex-mulher, que não quiserem falar hoje à imprensa, serão transferidos para a carceragem e permanecerão presos até o julgamento.

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