Moradores do Assentamento 12 de Abril, na cidade de Bituruna (a cerca de 300 quilômetros de Curitiba, confirmaram denúncia de prática de ágio em três supermercados, na venda de alimentos a famílias assentadas, e a cobrança de ‘‘pedágio’’ por parte de técnicos do projeto Lumiar ligados ao Movimento dos Sem-Terra (MST). A Polícia Federal vai investigar se a diferença cobrada a mais nos alimentos é uma nova forma de ‘‘pedágio’’ financeiro em benefício do MST, como se suspeita. Os comerciantes negam a acusação. Líderes do MST procurados em Bituruna e em Curitiba para dar explicações não foram localizados.
Os assentados que se dispõem a falar evitam se identificar, por medo de ‘‘perseguição’’. A., de 27 anos, e A.S., de 42 anos, acusam os supermercados Magnabosco, Subil e Modelo, de Bituruna, de terem elevado os preços de vários ítens de alimentos, no ano passado, durante o período em que fizeram compras com recursos da União liberados para reforma agrária. Segundo eles, os aumentos, em cada mercadoria, variavam de R$ 0,15 a 0,20.
A. citou como exemplo um óleo que antes custava R$ 0,95 e passou a ser vendido a R$ 1,25 quando os assentados foram aos supermercados com notas que lhes davam direito a levar R$ 200,00 (cada família) em alimentos. Com o ágio, levavam para casa menos alimentos do que poderiam ter comprado.
No período das compras (setembro e dezembro de 1999), as famílias de A. e A.S. receberam, naqueles meses, respectivamente, créditos em duas parcelas de R$ 700,00 cada. Desse valor, R$ 200,00 eram destinados à compra de alimentos em supermercados e R$ 500,00 podiam ser gastos em despesas de produtos e equipamentos utilizados no plantio de milho, arroz, feijão, mandioca, batata, cebola etc. Os assentados disseram que produzem para o próprio sustento. A produção, por enquanto, não é suficiente para ser comercializada.
Eles recebiam notas de crédito e não viam o dinheiro. As notas, com assinaturas de técnicos do projeto Lumiar, eram entregues aos comerciantes, que as apresentavam ao Banco do Brasil e recebiam os créditos em conta corrente. O projeto Lumiar foi bloqueado pelo governo federal em razão das denúncias de cobrança de ‘‘pedágio’’ pelo MST.
Os comerciantes Rui de Cesário, de 44 anos, do supercado Magnabosco, Fernando Giovani Longo, de 29 anos, do supermercado Subil, e Ben Hur Parizoto, de 34 anos, do supermercado Modelo, rebatem as acusações com a afirmação de que não praticaram nenhum ágio. Cada supermercado forneceu alimentos a cerca de 100 famílias de assentados.
Cesário disse que a licitação e os preços eram do conhecimento dos líderes dos assentamentos e de uma mulher chamada Ivone (não lembra o nome completo), funcionária do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra). Longo afirmou que a licitação foi feita pelo MST. Os dois esclareceram que, como comerciantes, tinham interesse em vender e não viam restrição numa concorrência que tinha a participação de uma funcionária do Incra, de líderes dos assentados e do MST.
O superintendente interino do Incra no Paraná, José Carlos de Araújo Vieira, disse que não tem conhecimento dessa ‘‘particularidade’’, da participação de uma funcionária do Incra na licitação em Bituruna. Mas adiantou que caso a prática de ágio seja comprovada e se uma funcionária do Incra tiver participado da suposta irregularidade, ‘‘ela vai ser punida’’. O tipo de punição depende do resultado das investigações, a cargo da Polícia Federal.
Os coordenadores estaduais do MST no Paraná, Luiz Gomes e Roberto Baggio, foram procurados, mas não encontrados.