Assentado é morto em fazenda no PR
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 22 de novembro de 2000
Marcos Zanatta De Maringá 
O assentado Sebastião da Maia, de 38 anos, conhecido como Tiãozinho, foi morto ontem, em Querência do Norte, no noroeste do Paraná. Os acusados pelo assassinato são seguranças da Fazenda Água da Prata. O crime ocorreu após 300 sem-terra retomarem a propriedade, desocupada pela segunda vez na sexta-feira da semana passada pela polícia. Um sem-terra, não identificado, ficou levemente ferido.
Cinco dos dez seguranças que estavam na propriedade foram presos com armas pesadas. José João da Silva, 54 anos, Rafael Alves de Oliveira, 56, Valdir de Almeida, 40, Nilton Nunes de Carvalho, 56 e Donizete Aparecido da Silva, 52, estavam a cerca de um quilômetro da sede da propriedade e tentaram dispensar três espingardas calibre 12 e dois revólveres 38.
Ao saberem da morte de Tiãozinho, como era conhecido o assentado, os sem-terra colocaram fogo na sede da fazenda e em um trator que, segundo eles, estava sendo usado para destruir as lavouras.
Segundo versão da polícia, confirmada pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) na região, as cerca de 70 pessoas retiradas da área, além de assentados e acampados na região, chegaram na propriedade por volta das 6 horas. Os seguranças, que estavam na sede, fugiram na hora da reocupação.
Mais de uma hora depois, os sem-terra começaram a voltar para as áreas de origem. Segundo Giovani Braum, da coordenação local do MST, Tiãozinho ia em direção ao assentamento Che Guevara, ao lado da Água da Prata, quando foi surpreendido numa emboscada. Um dos seguranças, que a polícia não informou o nome, atirou na cabeça do assentado com uma espingarda calibre 12. O tiro foi fatal e feriu um outro sem-terra que estava com o grupo.
Segundo o delegado de Loanda, José Aquino de Almeida, os seguranças foram autuados por porte ilegal de arma e transferidos ontem para a cadeia de Paranavaí. Tudo não passa de plano da polícia do governo Lerner e dos fazendeiros, através da União Democrática Ruralista (UDR), para matar sem-terra, acusou o líder do MST. Braum lembrou que foi o quarto companheiro morto na região. Decidimos reinvadir a fazenda porque existe decreto de desapropriação e a área já estava sendo trabalhada pelo pessoal há anos, disse.
A Fazenda Água da Prata pertence a Wilson Ferreira, de Ponta Grossa, e tem 460 alqueires. A área foi invadida em junho de 1997 e desocupada em maio de 1999. Menos de um mês depois os sem-terra voltaram à área, até a retirada das 36 famílias na semana passada. O grupo ficou revoltado porque já tinha construído 20 casas no local. As casas foram todas destruídas depois da desocupação.
O que mais revoltou os sem-terra e assentados foi a iniciativa dos responsáveis pela área em destruir as lavouras. São cerca de 300 alqueires de mandioca, milho, feijão, algodão e soja. O restante da área foi mantido no pasto para as criações dos acampados. Ontem no final da tarde o clima já era mais tranquilo na fazenda, apesar de os sem-terra terem fechado a estrada de acesso à propriedade.
O corpo de Maia, pai de dois filhos, de 4 e 11 anos, será sepultado pela manhã no cemitério de Querência do Norte. Após o enterro os sem-terra prometem realizar um protesto no centro da cidade.


