São Luís, 24 (AE) - A Comissão de Ética da Assembléia Legislativa do Maranhão começou a examinar requerimento de cassação do deputado José Gerardo de Abreu (PPB), apontado como o chefe do crime organizado no Estado. Além disso, 11 membros da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Narcotráfico na Câmara dos Deputados chegam amanhã (25) ao Estado para investigar o crime organizado.
O pedido de afastamento de Gerardo foi apresentado por PT, PSB e PDT. A comissão dará prazo de cinco sessões ordinárias para que ele apresente a versão dele. Mas, antes de qualquer manifestação, a Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) terá de apresentar parecer sobre a cassação.
Além de Gerardo, o deputado estadual Francisco Caíca (PSD) também está sob suspeita de comandar uma quadrilha de ladrões de carretas com ramificações em Rondônia, no Acre, no Piauí e na Bolívia. O deputado cassado Hildebrando Pascoal (sem partido-AC) é apontado como o principal nome da organização.
O deputado Augusto Farias (PPB-AL), irmão do empresário Paulo César Farias, o PC Farias, está sendo investigado. Outro irmão, José Rogério Cavalcante Farias, é dono de uma fazenda no interior do Maranhão, que supostamente também pertenceria a Augusto Farias, às margens da Rodovia BR-316. Ele negou ter ligações com o tráfico de drogas, mas admitiu ter hospedado o empresário William Amorim, considerado um dos líderes do bando.
Pelo menos dez prefeitos e ex-prefeitos maranhenses também são citados. Dois juízes - José Ribamar Heluy Júnior e José de Arimatéia Correia - começaram a ser investigados pela Corregedoria-Geral de Justiça porque teriam colaborado com a ação dos bandidos, expedindo alvarás de fiel depositário - documentos que permitiam a circulação de caminhões roubados. Os magistrados negam as irregularidades e autorizaram a quebra do próprio sigilo bancário, fiscal e telefônico.
Pistoleiros de aluguel, empresários, fazendeiros, receptadores e cerca de 50 policiais estão implicados em histórias de corrupção, desmandos, chacinas, sequestros, extorsões e comércio de cocaína adquirida em território boliviano em troca de carretas roubadas nas estradas do Norte do País. Um dos acusados chama-se Joaquim Felipe de Souza Neto, empresário que está com a prisão decretada judicialmente.
A governadora do Maranhão, Roseana Sarney (PFL), e o gerente de Segurança, Justiça e Cidadania do Estado, Raimundo Cutrim, serão ouvidos pela CPI. Os deputados da comissão que vão a São Luís esperam que ela e Cutrim contribuam com informações para fechar o cerco ao bando. "Vamos detonar todo o esquema", disse o relator da CPI, Moroni Torgan (PFL-CE). Segundo ele, a quadrilha do Maranhão tem ramificações em outros 13 Estados.
"É um negócio muito preocupante", avaliou Torgan, que é delegado da Polícia Federal (PF) e foi vice-governador do Ceará. Os deputados vão ouvir, além da governadora e do gerente de Segurança, mais 12 pessoas, incluindo dois assaltantes que estão presos.
Ao comando da polícia, eles revelaram detalhes que incriminam Gerardo e Caíca. A comissão está mantendo em segredo a identidade dessas testemunhas, temendo que elas possam ser executadas.
Já a CPI da Assembléia Legislativa do Maranhão, composta por sete deputados, foi criada a partir das denúncias feitas pelo gaúcho Jorge Meres. Acusado de fazer parte da gangue dos deputados, Meres está preso no Complexo Penitenciário de Pedrinhas. Da cadeia, ele mandou cartas para autoridades do primeiro escalão da polícia contando como foi o assassinato do delegado Stênio Mendonça, em maio de 1997.
Mendonça foi atraído para uma emboscada na Avenida Litorânea e fuzilado pelos ocupantes de um Fiat. O delegado estava reunindo provas contra os deputados e indiciou criminalmente a filha de Caíco. Os deputados teriam encomendado a morte do delegado. O fuzilamento foi liderado pelo assaltante José Humberto Gomes de Oliveira, mais conhecido como "Bel". Um dos integrantes do bando, Antonio Carlos Maia, mais conhecido como "Carlinhos", recusou-se a participar da cilada. Ele contou que a execução do delegado custou R$ 200 mil.
"Carlinhos" iria receber R$ 25 mil para dirigir o carro. Ele foi preso e condenado a 19 anos e 9 meses de prisão. "Bel" e outros quatro cúmplices foram assassinados um ano depois, por um grupo de policiais, na localidade de Barro Vermelho - em Santa Inês, a 360 quilômetros da capital -, onde Gerardo possui a Fazenda Joelina. Os bandidos haviam sido levados para uma audiência no fórum local - onde deveriam depor sobre o assassinato de um vereador -, quando o camburão policial que os transportava foi fechado na estrada.
O primeiro a depor à CPI aberta na Assembléia Legislativa foi o sargento da Polícia Militar Antonio Lisboa Correia, que está preso no quartel do Comando-Geral da PM, em São Luís. Lisboa é acusado de ter reorganizado o bando depois da morte de "Bel". Na época, o sargento era delegado de Nova Olinda.
Torgan disse que um dos objetivos da presença dos deputados federais no Maranhão "é confirmar o esquema de envio das carretas para a Bolívia."

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