Rio, 29 (AE) - Suspensa por quatro liminares e uma medida cautelar, a assembléia geral de acionistas de Furnas, que decidiria hoje a divisão da empresa em três (duas geradoras e uma trasmissora de energia) para a privatização, foi adiada por, pelo menos 30 dias. A direção de Furnas prevê a possibilidade de a nova reunião dos acionistas acontecer somente em junho. Segundo o diretor da área de Desestatização do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), José Luiz Osório, o cronograma de privatização, que previa a venda da estatal em setembro, vai atrasar.
"Na verdade, o processo de Furnas já está atrasado", afirma Osório, lembrando que o trabalho de consultoria para a estatal teve início um ano antes do da Chesf e da Eletronorte, que estão relativamente mais adiantados. O principal motivo da suspensão da assembléia de hoje foi a discordância dos empregados em relação à decisão do governo de não reconhecer a dívida de R$ 1,204 bilhão da Fundação Real Grandeza, o fundo de pensão dos funcionários de Furnas. Na prática isto quer dizer que não há compromisso formal de honrar a dívida, apenas a intenção de pagá-la, manifestada em uma provisão no balanço.
O presidente interino da empresa, Celso Ferreira, que acumula a diretoria de Operações, disse, em entrevista à tarde, que as direções de Furnas e da Eletrobrás "estão empenhadas em rediscutir este assunto". O diretor do BNDES afirmou, porém, que não há chance de a dívida ser reconhecida antes da auditagem das contas do fundo. "Se o trabalho não for concluído antes da assembléia, não haverá reconhecimento", afirma. Os técnicos do banco consideraram alto demais o débito da fundação, que corresponte a 110% de seu patrimônio e é 40% superior ao endividamento total de Furnas.
Pela manhã, uma tropa de 150 policiais do Batalhão de Choque e do 2º Batalhão da Polícia Militar cercaram a sede de Furnas, bloquearam os acessos ao prédio e guarneceram o único elevador que permaneceu em funcionamento. Os acionistas minoritários, que não chegam a representar 1% do capital total da empresa, só puderam subir ao local da assembléia depois de passar por uma triagem de identificação. Cerca de 400 manifestantes acompanharam, do pátio da empresa, a chegada dos oficiais de Justiça, levando liminares suspendendo a reunião. Às 14h30m, a diretoria de Furnas anunciou o adiamento da assembléia.
"O tempo se dilatou muito e não há mais como realizar a reunião", disse o presidente da empresa. Como a elaboração dos estudos para a cisão foi feita com base no balanço de janeiro de Furnas, todo o material terá de ser refeito. Pela lei das empresas de sociedade anônima, um balanço serve de base para estudos do tipo por um prazo máximo de três meses, que termina hoje. A Eletrobrás não decidiu ainda se para a próxima assembléia será utilizado o balanço de fevereiro (que limitaria a formalização da cisão até o fim de maio) ou de março, que daria um prazo mais longo, até junho.
Qualquer que seja a decisão, o Sindicato dos Urbanitários, que conseguiu uma das liminares judiciais, já informou que entrará, na ocasião da próxima assembléia, com novo pedido de cancelamento na Justiça. "Somos contra a privatização", disse o presidente do sindicato, Aldanir Souza. "Vamos fazer o possível para privatizar Furnas no segundo semestre", diz o Osório, diretor do BNDES.

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