Manoharpur (AE-REUTERS) - Gritos e o crepitar de fogo acordaram a população desta remota vila no estado de Orissa, no leste da Índia, numa noite de janeiro. Aqueles que se aventuraram a sair para investigar ficaram paralisados ao verem um jipe em chamas cercado por uma multidão enlouquecida e ao ouvirem o choro de dois jovens rapazes e de seu pai presos dentro do veículo. Mas ninguém tentou apagar o fogo ou confrontar os homens raivosos para resgatar Graham Stewart Staines, um missionário australiano, e seus filhos, de queimarem até a morte. "O veículo queimava tão furiosamente que nem conseguimos chegar perto", disse um residente de Manoharpur. "Mas nós simplesmente não conseguimos esquecer as circunstâncias do funeral ao vivo".
Desde o dia de Natal, extremistas hindus têm realizado ataques contra a comunidade cristã da Índia, que representa apenas 2,3% da população total de 960 milhões. A maioria dos casos de incêndios em igrejas e de ataques a freiras ou padres aconteceram no estado de Gujarat, no oeste, mais de 1.000 quilômetros de Orissa. Ninguém assumiu a responsabilidade pelos incidentes. Ativistas hindus insistem que missionários como Staines, de 58 anos, estão forçando os pobres e os moradores de tribos a abraçarem o cristianismo. Mas ativistas cristãos dizem que estão apenas oferecendo caridade e acusam os zelotes hindus de perseguir sua comunidade. Staines vivia na Índia há 30 anos, cuidando de um lar para leprosos em Baripada, a 140 quilômetros de onde ele morreu. "Ele teve uma vida dedicada às pessoas. É inimaginável que qualquer um pudesse pensar em matá-lo", disse Kutlu, um dos chocados residentes do lar para leprosos.
A violência contra cristãos estava começando a gerar preocupação internacional quando aconteceram os brutais assassinatos. Enviados dos Estados Unidos, da União Européia e do Vaticano se encontraram com oficiais do Ministério do Interior para discutir os incidentes. O ministro-chefe de Orissa, que é governado pelo Partido do Congresso, o principal opositor do nacionalista hindu Partido Bharatiya Janata (PBJ), ofereceu sua renúncia depois dos assassinatos. Mas os ataques continuaram apesar do governo ter assegurado repetidamente que os cristãos e outras minorias seriam protegidos.
Logo depois dos assassinatos, a polícia prendeu dezenas de pessoas que apoiam o Bajrang Dal, um grupo de direita hindu. "Moradores inocentes de tribos estão sendo cooptados para o cristianismo por uma mistura de mulheres, arroz e frangos", disse Subhash Chouhan, que pertence à Jagran Samukhya hindu, uma organização frontal do Rashtriya Swamyamsevak Sangh (RSS), um grupo de voluntários hindu. O RSS é o parente ideológico de grupos de direita como o Bajrang Dal e o PBJ. Chocado com a violência, o importante oficial do PBJ e ministro de Assuntos Parlamentares, Madan Lal Khurana, renunciou logo após o ataque aos Staines.
Os extremistas hindus dizem que promessas de mulheres, suprimentos de arroz e elaborados pratos não-vegetarianos feitas pelos missionários estão fazendo os membros de tribos abraçarem o cristianismo. Os Staines, eles afirmam, faziam uma sessão de evangelização em Manoharpur quando foram mortos. Mas sua viúva, Gladys, nega a acusação. "Ninguém pode te converter se você não quiser", ela disse. "Ele não estava pregando em Manoharpur. O acampamento anual que era realizado lá há sete anos era exclusivamente para as famílias cristãs".
Analistas dizem que em uma área onde baixas castas hindus e populações tribais compõem quase 40% da população, tanto os missionários cristãos quanto os fundamentalistas hindus têm tentado aumentar seus respectivos rebanhos. "O resultado tem sido conversões e reconversões que levaram a pesadas suspeitas e a um aumento do conflito entre as duas comunidades", disse Prabhakar Das. Acusações contra os missionários se tornaram estridentes conforme rumores infundados de que mais de 5.000 tribais estavam silenciosamente sendo convertidos anualmente em áreas afastadas de Orissa. As relações entre as tribos Santhal e os cristãos convertidos também se tornaram piores depois que alguns convertidos pararam de aderir a tradições e costumes tribais , disseram moradores locais. "Com 34 das 150 famílias da tribo tendo se convertido ao cristianismo, a vila ficou claramente dividida por linhas religiosas", disse um lojista na cidade próxima de Thakurmunda.

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