Assassinato de Chico Mendes faz 10 anos
PUBLICAÇÃO
domingo, 20 de dezembro de 1998
Agência Estado 
Desta vez me acertaram. Foram essas as últimas palavras do presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Xapuri (Acre), Francisco Mendes, 44 anos, marcado para morrer por latifundiários da região. O crime, ocorrido há dez anos - no dia 22 de dezembro de 1988 - abalou a opinião pública internacional. O mandante Darly Alves da Silva, condenado a 19 anos de prisão, cumpre pena na Penitenciária da Papuda, em Brasília, desde 1996, quando foi recapturado após ter fugido da cadeia em Rio Branco (AC).
Chico Mendes, ganhador de prêmios internacionais por sua luta pela preservação da floresta amazônica, foi emboscado por dois pistoleiros na porta da cozinha de sua casa e atingido por um tiro desferido por Darcy Alves Pereira, a mando de Darly. Ele estava jantando com dois policiais militares que o governo havia escalado para lhe dar proteção.
Seis meses antes de morrer, o líder dos seringueiros já havia denunciado Darly Alves da Silva. Darly e seu irmão Alvarino eram donos de cerca de 20 mil hectares de terras na região e, segundo denúncias divulgadas pela CNBB na época, responsáveis por mais de 100 mortes de trabalhadores desde sua chegada ao lugar, por volta de 1975.
Chico Mendes passou a tornar-se incômodo para muitos fazendeiros da região por ter passado a defender a preservação da mata, principalmente contra a penetração destrutiva dos grandes grupos empresariais interessados na exploração da madeira. Ambientalistas do mundo inteiro passaram a apoiar a causa de Mendes, que era sempre consultado sobre os projetos de desenvolvimento da Amazônia.
Por seu trabalho, recebeu o prêmio Global 500 das Nações Unidas, e foi homenageado com a medalha ambiental da Better World Society. Ele nem sabia ler ainda, quando tinha 24 anos, e só no começo da década de 70 passou a liderar o primeiro movimento contra o desmatamento. todo seringueiro nasce meio ecologista porque defendemos a mata e nossa sobrevivência sem destruições, afirmava.
Era a favor da demarcação das terras indígenas, mesmo as situadas em áreas de fronteira, em vez da sua transformação em colônias, como pretendia a Funai. E era, também, favorável à suspensão dos incentivos oficiais e queria que os financiamentos externos fossem colocados sob o controle das populações de índios e seringueiros.
Era casado com Ilzamar e pai de duas crianças: Elenira, hoje com 14 anos, e Sandino, 12. Ilzamar é casada atualmente com um funcionário público e mora em Rio Branco, capital do Acre.


