São Paulo, 25 (AE) - O deputado estadual José Gerardo de Abreu (PPB), - apontado como o chefe do crime organizado no Maranhão - pagou R$ 200 mil pela morte do delegado de polícia Stênio Mendonça. A revelação foi feita pelo assaltante de carretas José João Soares, mais conhecido como "Jota", à Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Assembléia Legislativa que investiga a quadrilha e as ramificações dela em 14 Estados.
Além de Abreu, as apurações apontam para o deputado Francisco Caíca (PSD), o ex-deputado Hildebrando Pascoal (sem partido-AC), e o deputado federal Augusto Farias (PPB-AL), irmão do empresário Paulo César Farias, o PC Farias, além de juízes e fazendeiros.
"Jota" fez um longo depoimento que chocou os deputados da CPI. Ele delatou a estrutura de corrupção que domina setores da polícia e citou o envolvimento de vereadores e, principalmente, prefeitos que compram mercadorias roubadas. Segundo "Jota", o delegado Almir Macedo, que comandou a polícia na região de Santa Inês - um dos principais focos de ataques a caminhoneiros no Norte do País - também está ligado à organização. O prefeito de Amapá do Maranhão, Avenir Pacheco Andrade, foi apontado como um dos receptadores de cargas desviadas.
Mendonça investigava as atividades de Abreu, em maio de 1997, quando foi executado na Avenida Litorânea por um grupo de pistoleiros. Atraído por uma ligação telefônica, Mendonça foi emboscado pelos quatro ocupantes de um Fiat e caiu morto com cinco tiros. Um ano depois, os assassinos do delegado foram fuzilados por policiais numa estrada do interior. A Justiça acredita que houve uma operação de "queima-de-arquivo" e decretou a prisão de 19 policiais envolvidos na chacina.
Dias antes de ser executado, o delegado havia identificado provas da participação do parlamentar com ladrões de cargas. Empresário do setor de transporte público, exercendo o quinto mandato consecutivo, Abreu corre o risco, agora, de ser expulso da carreira política. Hoje mesmo, a Comissão de Ética da Assembléia começou a examinar a cassação de Abreu, requerida por três partidos.
Segundo a Gerência de Segurança, Justiça e Cidadania do Maranhão, na garagem de uma das empresas de Abreu, foi encontrada uma carreta que havia sido roubada em 1992 em Minas Gerais. Também foram encontrados documentos que estão sendo periciados pelo Instituto de Criminalística (IC), munição de grosso calibre - exclusiva das Forças Armadas - e uma palmatória. "Jota" disse que cada pistoleiro contratado para eliminar o delegado recebeu R$ 25 mil. O líder do grupo, José Humberto Gomes de Oliveira, mais conhecido como "Bel", ficou com a maior parte, R$ 125 mil."O Bel contou-me que o Zé Gerardo (Abreu) ainda lhe ofereceu mais R$ 60 mil da venda de uma mercadoria roubada", afirmou "Jota". Ele declarou que Macedo sabia do plano para matar o colega. "O Almir liberou o Fiat para o pessoal fechar o Stênio", informou "Jota". "Ninguém gostava do Stênio na polícia porque ele não era corrupto", observou.
Macedo teria adquirido armamento pesado de "Jota". O assaltante afirmou que vendeu fuzis AR-15, metralhadoras e Fuzil Automático Leve (FAL) 762 para o delegado. "Essas armas eram minhas, nunca escondi isso de ninguém", afirmou "Jota". Ele contou que as armas foram lubrificadas num depósito de propriedade do prefeito de Amapá do Maranhão."Eu mesmo entreguei as armas para o delegado Almir", prosseguiu. Ao ser indagado sobre a ação dos receptadores, "Jota" foi incisivo: "Tem várias pessoas que compram carga no Maranhão, como o prefeito Avenir." O prefeito depôs à CPI e negou prática de crimes. "Ele mentiu porque sabe que a casa já caiu", reiterou "Jota". "Não estou delatando ele; todo mundo sabe que ele tem um depósito em Magaruçumé e outro em Cândido Mendes onde descarreguei caixas de cerveja."
A CPI do Narcotráfico na Câmara dos Deputados hoje ao Maranhão para investigar o crime organizado e o envolvimento de parlamentares, policiais e fazendeiros em ataques a caminhões, tráfico de drogas e assassinatos. Os 11 deputados federais que integram a CPI da Câmara encontraram uma São Luís atônita diante do volume de denúncias sobre o envolvimento de políticos, empresários e assaltantes de cargas. A cidade está praticamente parada, acompanhando todos os lances da CPI estadual, instalada pela Assembléia Legislativa. Os trabalhos da CPI do Crime Organizado são transmitidos ao vivo pelas principais emissoras de rádio.
Os deputados federais foram recebidos pela governadora Roseana Sarney (PFL). Ela afirmou que está empenhada na apuração. Em 1998, depois que os matadores de Mendonça foram vítimas de chacina, Roseana demitiu o secretário de Segurança Pública, coronel reformado Exército Artur Xexéo, entregando o cargo para o delegado federal Raimundo Cutrim. A governadora disse que não tem receio dos desdobramentos das investigações. "Tenho muita coragem e é isso que todos querem; se existe alguma coisa maior, a gente tem de descobrir e está na hora."
No governo desde 1995 - foi reeleita no primeiro turno nas eleições de 1998 -, Roseana explicou que, desde a morte do delegado, foram demitidos dois secretários de Segurança. Ela não aceita as denúncias de que o Maranhão é "uma terra da impunidade". "Aqui, nunca foi terra de impunidade, estou determinada e a segurança é uma das prioridades do nosso Estado."
Sobre ameaças de morte que estaria recebendo, a governadora afirmou: "Nunca tive medo disso, já passei muito perto da morte (uma referência às cirurgias que sofreu para retirada do útero e de um nódulo no pulmão direito)." Ela disse que recebeu um bilhete contendo ameaças, além de telefonemas anônimos. "Não me impressiono com isso, não dei muita bola."
Os deputados da CPI do Narcotráfico deixaram o Palácio do Governo e foram direto para a Assembléia Legislativa, onde começaram a ouvir "Jota".

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