Ascensão e queda de um narcotraficante norte-americano no México
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quarta-feira, 28 de abril de 1999
Por Niko Price, da Associated Press (assinatura obrigatória) 
Cidade do México (AE-AP) - Gilberto Salinas começou sua carreira na polícia rural do Texas, ganhando pouco mais que três dólares por hora. Quando foi detido, duas décadas depois, confessou que ganhava US$ 22 milhões por ano como um dos principais narcotraficantes do mundo. Hoje em dia, Salinas, que está preso no México, é procurado pelos Estados Unidos para ser julgado e por seus ex-sócios para ser assassinado. Enquanto um tribunal mexicano está julgando-o por narcotráfico, lavagem de dinheiro e crime organizado, o governo norte-americano solicita sua extradição, através da qual Salinas poderia ser a primeira pessoa julgada nos Estados Unidos conforme um tratado temporal de extradição cuja aprovação ainda está pendente. Mas um funcionário da Justiça disse que Salinas pode ser morto antes que se pronuncie um veredito em seu caso: afirma-se que os narcotraficantes que ele traiu ofereceram uma recompensa para quem o retirar da prisão e matar.
Gilberto Salinas sabe demais. Em sua carreira de policial rural a narcotraficante, aprendeu bem sobre o negócio das drogas e o complexo funcionamento do maior grupo do mundo dedicado ao contrabando de cocaína e maconha. A história deste norte-americano envolvido no mundo das drogas, dos narcodólares e dos assassinatos permite dar uma bela olhada nos segredos do narcotráfico internacional.
Faz nove meses que uma confissão de um policial corrupto da zona turística de Cancún permitiu às autoridades deter um narcotraficante chamado Gilberto Garza García. O homem foi preso e imediatamente prometeu, em troca de proteção das autoridades, cooperar com elas e inclusive as levar ao lugar onde se escondia seu chefe Alcides Ramón Magaña, conhecido como El Metro, considerado por muitos o principal narcotraficante do mundo. Mas Garza García fugiu no final do ano, quando levava as autoridades a Cancún para capturar El Metro, de acordo com um funcionário da Justiça mexicano que a lei não permite que seja identificado. Algum tempo depois, as autoridades venezuelanas notificaram o governo mexicano que haviam detido um indivíduo que havia entrado no país usando documentos falsos. O indivíduo foi deportado para o México, onde o esperavam as autoridades. Foi então que o governo norte-americano pediu às autoridades mexicanas que comparassem as impressões digitais de Garza García com as de um fugitivo dos Estados Unidos chamado Gilberto Salinas. As impressões coincidiram. Quando foi confrontado com isso, de acordo com uma confissão obtida pela Associated Press, Salinas deu detalhes sobre suas operações. Entregou os nomes dos chefes de seu grupo, as rotas de contrabando e endereços de casas, assim como os nomes de hotéis e discotecas que eram de propriedade do grupo de contrabando. Essa confissão implicou Mário Villanueva, ex-governador do estado que inclui Cancún, que desapareceu no mês passado quando seu mandato estava a ponto de terminar e a polícia se preparava para prendê-lo.
Tudo começou de maneira muito humilde. Gilberto Salinas nasceu em 1958 no povoado texano de Donna, perto da fronteira mexicana, em uma vizinhança pobre e perigosa. Cursou o primário em escolas públicas e se matriculou na Universidade Panamericana
onde estudou criminologia durante dois anos, mas sem chegar a se graduar. Depois de abandonar seus estudos fez diversos trabalhos e finalmente, em 1979, ingressou na polícia do povoado com um salário de US$ 3,17 por hora. Após receber remunerações medíocres, foi para a polícia de Weslaco em maio de 1980. Passou então a ganhar cerca de US$ 750 mensais. Em dezembro de 1982, Salinas foi despedido da polícia de Weslaco depois de ter sido investigado por acusações que envolviam desde roubo e fraude até a venda de drogas em seu próprio veículo de patrulha. No entanto
tais acusações não foram comprovadas.
Em abril de 1983 Salinas foi preso por possessão de maconha e acabou sendo condenado a três anos de liberdade condicional. Em 1988 se declarou culpado de confabulação para vender drogas e foi sentenciado a dez anos de liberdade condicional. Em 1990, de acordo com um jurado investigador, Salinas propôs a compra de cerca de 1.360 quilos de maconha de um informante do governo. Segundo fiscais, Salinas entregou ao informante como pagamento inicial US$ 405 mil em dinheiro. Salinas e quatro cúmplices foram presos. Ele pagou uma fiança de US$ 100 mil e escapou sem se apresentar ao juiz, enquanto seus cúmplices eram condenados a dez anos de prisão cada um. Mas isso não deteve o impulso de Salinas, que foi acusado de delitos relacionados com drogas na Georgia e no Texas, em 1992. Em setembro de 1996 a mãe de um presumido filho de Salinas morreu três dias após dar a luz. Quando o obstetra foi assassinado, as autoridades suspeitaram de Salinas. No entanto, o caso ainda está pendente. Neste tempo, Salinas vivia em Reynosa, no México, onde trabalhava para o cartel de Juárez, uma organização internacional encabeçada por Amado Carrillo Fuentes. Salinas se aliou a El Metro, um ex-guarda-costas de Carrillo Fuentes, que havia mudado sua base para Cancún. El Metro estava no lugar certo no momento preciso: dado que não podiam passar carregamentos grandes por avião devido à vigilância da DEA, o cartel enviava agora embarques pequenos por mar, através de portos do Caribe mexicano assim como de Belice e Guatemala.
Depois da morte de Carrillo Fuentes durante uma cirurgia plástica realizada em julho de 1997, El Metro se converteu em um dos principais dirigentes do cartel - se não no chefe absoluto - e Salinas era um de seus mais importantes subalternos. Finalmente, El Metro usou Salinas para organizar uma operação para levar cocaína e maconha do norte de México aos Estados Unidos, de acordo com a confissão do próprio Salinas feita em 8 de outubro passado. A passagem pela fronteira incluía, segundo a confissão, o pagamento de US$ 50 mil para a polícia mexicana em troca da não-interferência no trânsito das drogas. Uma vez que os carregamentos chegavam ao Texas, eram levados em caminhões de frutas e vegetais para Chicago e Nova York. Salinas cobrava US$ 1.200 por quilo de cocaína. O preço era mais caro do que o habitual, mas Salinas garantia a entrega. Ele entregava em média uma tonelada e meia por mês, o que resultava no ingresso de cerca de US$ 22 milhões por ano. No mês passado, ao concluir meses de interrogatórios por parte da polícia mexicana, Salinas foi detido formalmente e seu "status" passou de testemunha protegida para a de prisioneiro comum. Ele foi acusado de contrabando de drogas, lavagem de dinheiro e crime organizado.
Agora que o México vai julgar Salinas, os Estados Unidos o querem de volta a seu território. Documentos dos tribunais demonstram que a Administração Federal Antidrogas dos Estados Unidos quer julgar Salinas por pelo menos quatro casos. "O consideramos um fugitivo que deve ser julgado", disse o fiscal federal Jody Young, de Brownsville, Texas. Pela lei mexicana, Salinas será julgado primeiro no México e deve cumprir sua sentença antes de ser extraditado para os Estados Unidos. Mas de acordo com um tratado temporal de extradição entre os dois países, Salinas poderia ser enviado aos Estados Unidos depois que seu julgamento no México seja concluído. Então, após o julgamento nos Estados Unidos, o réu cumpriria sua sentença no México e só então seria enviado de novo para os Estados Unidos para cumprir sua sentença lá. O Congresso norte-americano já aprovou o tratado, mas o Senado mexicano ainda está deliberando a respeito. O funcionário da Justiça mexicano disse que Salinas poderia ser o primeiro suspeito extraditado através deste convênio.
Muitos se perguntam como um ex-policial de um pequeno povoado do Texas pôde chegar ao nível de delinquência ao qual chegou Salinas. José Pérez, um tenente do departamento de polícia de Weslaco que foi o melhor amigo de Salinas desde seus anos de escola, se pergunta o que aconteceu com seu amigo. "Me lembro de como falávamos sobre os traficantes da comunidade", disse Pérez. "Havia muita gente que os invejava por terem tanto dinheiro e por guiarem Cadillacs". "Mas lhes digo. Por muitos anos tenho levado estas pessoas para a prisão. Nunca pensei que ele fosse por esse mau caminho", adicionou.


