As ruas de Cuba estão novamente cheias de carros
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quarta-feira, 23 de fevereiro de 2000
Por John Rice 
Havana (AE-AP) - A maioria dos cubanos não pode sequer pensar em comprar um carro num país onde um tanque de gasolina custa o equivalente a meses de salários. Mesmo assim, as ruas de Havana estão atualmente entupidas com o tráfico fumacento: um testemunho da criatividade cubana e sua melhora econômica.
Apenas cinco anos atrás, Havana era uma cidade sem carros. Exércitos de bicicletas e pedestres comandavam as ruas. Agora, carros juntaram-se aos táxis-motos, motocicletas, motonetas e carroças que esquivam-se dos inúmeros e enormes buracos das ruas da capital.
Nuvens de fumaça preta são expelidas dos motores a diesel dos velhos caminhões russos da marca Kama e de antigos carros norte-americanos modificados para funcionarem com este combustível.
As ruas abarrotadas são a evidência da circulação dos dólares norte-americanos na economia desde que Cuba legalizou a posse de dessa moeda em 1993 e, então, começou a vender gasolina por dinheiro norte-americano em postos especiais.
O custo pode ser pesado: um galão (3,8 litros) de combustível regular custa cerca de US$ 4, enquanto a maioria dos cubanos ganham apenas cerca de US$ 10 por mês.
Ainda assim, ousados cubanos estão comprando. Alguns têm parentes ou amigos no exterior que mandam dólares. Outros, ganham gorjetas em moeda norte-americana dos turistas. Alguns financiam seus carros transformando-os em táxis, geralmente sem a permissão do governo.
Gasolina ou peças sobressalentes roubadas do Estado também podem ser encontradas no mercado negro.
Velhos postos de gasolina com seus coelhos como logo e a marca "Rapido" continuam a pontuar Havana, mas dedicam-se, em sua maioria, a consertar e encher pneus. A distribuição estatal de gasolina barata foi reduzida a poucos galões por ano.
As ruas de Havana são um museu vivo da história automobilística: reluzentes Mercedes e Peugeots, novos em folha, brigam por um lugar nas ruas com Vespas de três rodas, Hudsons precariamente mantidas e Ladas e Volgas russos, até mesmo do estranho modelo A.
Há carros que a maioria dos americanos jamais viram: modelos estilo Jeep da marca ARO da Romênia, UAZ da União Soviética e Ssangyongs da Coréia do Sul, além de Skodas, Moskviches, Fiats poloneses e peculiares carros de três rodas que têm o formato e são pintados como laranjas. E há carros que dos quais os norte-americanos devem ter se esquecido: Simcas, Hillmans e Morris Minors.
O que provoca o barulho sob o capô desses carros é geralmente surpreendente.
Muitos cubanos removeram os motores movidos a gasolina dos carros norte-americanos da década de 50 e os trocaram por outros
de origem russa ou romena, movidos a diesel.
Pistões de Alfas Romeos foram achados em motocicletas Harley-Davidson. E os criativos mecânicos cubanos torceram e poliram estranhos pedaços de metal para manter motores, carrocerias e suspensões juntos, mais ou menos.
"Nós concertamos tudo aqui", diz o mecânico William Escalante, sentado na beirada da calçada da Rua Del Valle, um centro de reparos. "Nós temos que inventar bastante".
Poucos metros adiante, um outro mecânico ocupa-se com arames e tubos para o freio de um decadente Moskvich, pertencente ao governo. O pára-brisa do carro carrega um selo que certifica que ele passou por inspeção governamental.
Preocupado com a poluição e a segurança dos carros, precariamente mantidos, o governo iniciou uma inspeção compulsória em 1999.
Miguel Cabrera Reyes, o vice-ministro dos transportes, disse que cerca de 25% dos carros não passam na primeira inspeção e 10% são reprovados na segunda vez.
"Não é um índice alarmante de reprovação", diz ele, apesar de uma rápida checagem nos pára-brisas indicarem que muitos motoristas de velhos carros ainda têm que colocá-los á prova.
A reprovação frusta algumas pessoas.
"Se eles não fornecem gasolina, como podem fazer com que eu passe na inspeção?", reclama um motorista que espera na Rua Del Valle, enquanto o mecânico arruma os freios do seu Lada 1989. Dizendo que não quer problemas, ele nega-se a dar seu nome, embora ofereça seus serviços como motorista.
Mesmo alguns consertos podem ser arriscados. Com algumas partes difíceis de ser encontradas, alguns cubanos encontraram ou compraram peças desviadas dos estoques do Estado. Cada livro de registro de cada carro mostra a fonte legal de seu motor e de outras peças principais. Se os números não batem, o carro pode ser confiscado.
Felix Perez mostra o livro que indica que seu Simca fabricado em 1959 foi legalmente modificado com o mecanismo de direção de um velho Moskvich. "A única coisa original é o motor", diz ele.
Ele dirigiu-se para a Rua Del Valle com um amigo segurando uma garrafa plástica de gasolina para fora da janela, assim, o combustível pôde ser derramado através de um tubo para o carburador. Os mecânicos estavam tentando arrumar sua bomba de gasolina.
O fato de comprar um carro pode ser um desafio. Proprietários de envelhecidos carros pré-revolucionários podem vendê-los a qualquer um com dinheiro.
Alguns profissionais, ao longo dos anos, receberam permissão para comprar carros mais baratos do estado, em sua maioria Ladas ou Moskviches.
Alguns carros podem apenas ser revendidos de volta ao Estado, que paga bem abaixo do valor de mercado. Carros vendidos ilegalmente podem ser confiscados.
Aqueles que trabalham para empresas estrangeiras podem também
às vezes, adquirir carros novos, mas devem desistir deles caso percam seus empregos. Poucas pessoas, tais como estrelas do esporte, têm permissão para vender livremente seus carros. Mas a compra de tais carros podem requerer uma permissão por escrito do vice-presidente ou até mesmo do próprio Fidel Castro.


