As principais cidades paranaenses têm um problema para resolver na escalada das mudanças climáticas, um tempo de chuvas mais intensas e ventos mais fortes.

Bem arborizadas, tomadas por uma rede aérea de distribuição e com um dinamismo econômico que exige serviços de alta qualidade, elas dependem dos investimentos em modernização da Copel e das prefeituras para reduzir as interrupções no fornecimento e contar com religamentos mais ágeis.

A vegetação urbana é protagonista desta história porque as ventanias provocam movimentação nas copas e quedas integrais ou parciais das árvores que provocam desligamentos automáticos, ou por curtos circuitos ou por simples contatos de fios.

Além das árvores, as descargas das tempestades formam “arcos elétricos” que interferem no sistema de isolação que usa o ar como proteção e, preventivamente, a distribuição é interrompida. Os ventos fortes também fazem os cabos não isolados balançarem e se tocarem, o que também gera curtos.

“As redes foram concebidas em uma época com estações do ano mais bem definidas. E as cidades paranaenses não tinham uma arborização muito intensa. A grande maioria eram cidades jovens, com urbanização recente. Mas estas árvores cresceram e se tornaram um grande problema”, lembra o professor José Fernando Mangili Junior, vice-diretor do Centro de Tecnologia e Urbanismo da Universidade Estadual de Londrina.

“As cidades estão mais complexas e a exigência de conexão com os postes foi ficando cada vez maior. E assim se formou a poluição visual e esta vulnerabilidade a eventos climáticos porque a arborização foi pensada de forma equivocada. Deveria ocupar apenas o lado oposto da rua, com postes de um lado e árvores do outro”, resume o especialista.

Neste século, a melhoria das redes de distribuição se concentrou em investimentos nas redes aéreas compactas, o que reduziu episódios de desligamento. Na configuração mais antiga, a rede tem condutores nus, apoiada sobre isoladores de vidro ou porcelana, fixada em cruzetas. É uma estrutura mais frágil, que exige mais manutenção, porque é danificada com raios, chuvas, ventos, pássaros e acidentes de carros. Na configuração mais moderna, a distribuição usa um conjunto formado por um cabo de aço - chamado de mensageiro - e cabos cobertos com borracha, que podem ser enrolados, tornando a condução mais resistente em ventanias ou em períodos com muitos raios.

Imagem ilustrativa da imagem As redes elétricas e os temporais: soluções vão além de enterrar fiação
| Foto: Roberto Custódio

CONSUMIDORES MAIS EXIGENTES

O diretor comercial da Copel Distribuição, Julio Shigeaki Omori, informa que desde 2008 a Copel usa exclusivamente a rede compacta nas novas áreas de distribuição. “No Estado, metade da rede já é compacta. Em Curitiba, 60%. Em Maringá, 100%”, esclarece. Ele pondera, no entanto, que eventos climáticos severos derrubam postes e geram interrupções, mesmo com a nova tecnologia de fiação. Ele lembra também que o desgaste reduz o isolamento dos fios no novo sistema. “Em Maringá, por exemplo, o número de desligamentos da rede caiu 70%. Mas hoje esta quantidade muito menor de desligamentos não satisfaz, incomoda mais que antes”, compara.

A rede compacta é duas vezes mais cara que a convencional e parece ser o avanço possível em um país que optou pela distribuição aérea antes das cidades crescerem e se tornarem mais complexas também embaixo da terra. As estimativas variam - para a Copel o custo da fiação subterrânea pode ser até 10 vezes maior - mas o certo é que as chances de investimentos neste formato parecem cada vez mais remotas no Brasil, embora prefeitos estejam se movimentando para realizar parcerias com as distribuidoras e avaliarem a troca.

Um dos obstáculos, lembra Omori, é que as cidades não conseguiram mapear as intervenções no subsolo e em regiões densamente povoadas a troca exigiria estudos complexos e intervenções muito sofisticadas. Japão e Alemanha fizeram a escolha por redes subterrâneas logo no início do fenômeno da urbanização e hoje colhem os frutos. São países onde a média anual de interrupção se mede em minutos, enquanto no Brasil de 2024, a média foi superior a 10 horas, de acordo com levantamento da Agência Nacional de Energia Elétrica.

A diferença dos padrões de excelência no mundo desenvolvido com a realidade brasileira pressiona o mundo político e as prestadoras de serviço, especialmente nos dias seguintes às tempestades, quando muitas regiões ficam sem energia durante dias inteiros. No entanto, a regulação no fornecimento no País prioriza a acessibilidade tarifária, o que faria estes investimentos maciços impactarem o custo da distribuição da energia nos orçamentos das famílias e das empresas.

Em Curitiba, um grupo de trabalho liderado pelo governo municipal estuda como solucionar esta equação de alguns graus para tirar do papel um projeto de enterramento de 120 quilômetros de fiação em áreas mais adensadas, turísticas, históricas ou com problemas crônicos de avarias.

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ENTERRAMENTO PARA ATRAIR DATA CENTERS

Em Londrina, o debate também reacende a cada temporal. Um dos endereços mais preocupados com a questão na cidade é a Londrina Iluminação, companhia responsável em manter a claridade das ruas quando a noite chega. Há uma possibilidade concreta da cidade ter a chance de comparar a diferença entre fiação subterrânea e aérea até o aguardado centenário em 2034. Basta que se realize toda a intenção da atual administração municipal de dar cara nova ao Calçadão, no mais ambicioso projeto de requalificação da área central desde a intervenção desenhada por Jaime Lerner nos anos seguintes à geada de 1975.

A ideia do governo municipal é primeiro enterrar os fios na chamada Quadra Cinco do Calçadão, a que abriga o Teatro Ouro Verde. O presidente da Londrina Iluminação, Renan Salvador, diz que a companhia está buscando modelos internacionais para os projetos de enterramento, justamente pelo Brasil não ter tradição em rede subterrânea (ele lembra que o Rio de Janeiro é a cidade brasileira que conta com a maior rede do País e que mesmo assim só atende 11% das vias).

Salvador diz que estuda as soluções de Buenos Aires, Londres e Nova Iorque para transformar a via em um espaço agradável para visitantes e moradores e que o enterramento vai acompanhar as transformações na superfície, que vai paulatinamente agregar as outras quatro quadras da via.

“Vamos buscar recursos nos governos estadual e federal para este projeto e também para outras áreas”, informa.

Salvador também revela que a segurança que o enterramento gera para o sistema será importante para implementar políticas estratégicas do município, como a atração dos data centers, grandes estruturas de processamento de dados que exigem redes robustas e resilientes.

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| Foto: Roberto Custódio

SUPERCOMPUTADOR, ALGORITMO E RELIGAMENTO AUTOMÁTICO

A inteligência artificial tem ajudado na previsão de temporais e no impacto que eles causam no sistema de distribuição de energia, o que é considerado crucial para a mobilização dos cerca de 2 mil eletricistas da Copel Distribuição que estão espalhados no Estado. O projeto com o Simepar está em pleno desenvolvimento e usa um supercomputador para cálculos de alta complexidade baseados no histórico de informações de intempéries climáticas captadas pelas estações, satélites e radares meteorológicos do Simepar em todas as regiões do Estado. Estas informações são cruzadas com os registros de desligamentos da rede da Copel e criam algoritmos capazes de estimar o número de consumidores que serão afetados pela próxima tempestade. Omori explica que estas informações são fundamentais para planejar as estratégias de atuação e quantos caminhões e eletricistas serão necessários para trabalhar no plano de contingência e recompor o fornecimento.

Outra tecnologia que a companhia de distribuição tem aprimorado é a de religamento automático. Além do monitoramento remoto da rede, na qual é possível reativar redes que ficam “off” por precaução, o trabalho de troca dos relógios convencionais de medição por modelos digitais inteligentes está acelerado em todas as regiões do Estado. O diretor comercial estima que já são 2 milhões de unidades consumidoras com esta tecnologia, o que também reduz o tempo de resposta para religamentos nas áreas urbanas e rurais logo depois dos temporais.

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