As primeiras letras depois dos 40 anos
Aos 42 anos, Maria de Maria da Silva Ferrari, dona de um dos muitos brechós existentes no município de Tunas do Paraná, na Região Metropolitana de Curitiba, consegue pela primeira vez soletrar algumas palavras. Há dois meses, ela decidiu realizar um sonho antigo e entrou em uma das turmas de alfabetização do município.
Tinha duas coisas que eu queria ser: costureira profissional e professora. Como costureira eu dou uma bordoada, mas a professora ficou para trás, conta, bem-humorada. Filha de família com 16 irmãos, quando pequena morava na roça, em Paranavaí. Longe da cidade, ficou sem estudar.
Ela conta que sem saber ler passou por muitos apertos. Pegou ônibus errado, fez muita cara de quem estava entendendo tudo, foi motivo de deboche, mas não se intimidou. Não saber ler dá a sensação de que você não existe. Hoje já estou trocando a biela, o pistão, mas continuo disposta a aprender. Nunca é tarde, diz.
Do lado de fora de sua casa, na rua principal de Tunas, o agricultor Miguel Lourenço de Bonfim, 71 anos, é mais um entre os 28% da população da cidade que não sabe ler nem escrever. Bonfim nasceu na cidade vizinha de Cerro Azul e há 28 anos está em Tunas. É muito ruim. A gente não sabe ver um nome de rua, não pode escrever nada, diz. Ele conta que, por isso, nunca teve coragem de viajar ou foi para uma cidade maior sem companhia. Como é que que eu ia me achar ? (M.G.)





