O século XX, que acaba de fechar suas portas, pode ser pensado como o século das mulheres. Nisto, concordam um número significativo de historiadores, teóricos e analistas sociais. Em muitas partes do mundo, suas primeiras décadas foram o cenário da luta sufragista, sendo o voto feminino a grande reivindicação do que tem-se chamado ‘‘a primeira onda feminista’’. Mas quando com a conquista do voto apaga-se esta mais visível forma de agitação social e política das mulheres, continuam os processos de mudança que abrem espaço para as mulheres na ‘‘esfera pública’’ – principalmente, novas possibilidades de trabalho e estudo, que levam também ao nascimento posterior da ‘‘segunda onda feminista’’, que vai questionar abertamente a dominação masculina nas suas formas públicas e privadas.
Este feminismo da ‘‘segunda onda’’ resgata a participação das mulheres como sujeitos da história e avança uma visão de transformação social que as situa ao lado de outras categorias socialmente oprimidas. Sua ‘‘radicalidade’’ consiste, antes de mais nada, na sua firme insistência na criação de novas formas de relações sociais – no trabalho, na vida cotidiana e íntima, na criação cultural, no uso do poder e na distribuição da riqueza. É o feminismo que, na opinião do sociólogo australiano Robert Connell, teve como sua conquista mais clara, em nível mundial, ‘‘a deslegitimação’’ da dominação masculina, que mesmo sem garantir o desmantelamento das práticas sociais reais que sustentam a persistente desigualdade de gênero, tem profundas consequências culturais.
Claramente, hoje em dia as mulheres não são mais restritas ao âmbito doméstico, e aos homens não lhes cabe o ‘‘direito’’ de comandar. Observamos uma crescente convergência nas aspirações de mulheres e homens em relação ao trabalho e à vida cotidiana e familiar. Entre as classes médias, as mulheres evidentemente têm mais opções do que tinham noutras épocas, incluindo a opção de dar prioridade aos projetos profissionais; algumas pesquisas recentes mostram que certos homens começam a se sentir mais responsáveis pelo dia-a-dia dos seus filhos, e alguns já procuram criar maior equilíbrio entre atividades de trabalho e de família.
Constatei também em pesquisa minha, que as mulheres de camadas populares que ainda carecem de recursos e oportunidades para controlar aspectos básicos da sua vida, estão se enxergando como pessoas com ‘‘direitos iguais’’ nas suas famílias e comunidades e anseiam uma maior participação social. Mas em decorrência destas conquistas, o poder masculino torna-se mais difícil de identificar; tanto dentro das famílias quanto na sociedade ‘‘democratizada’’, tende a tornar-se mais sutil, mais encoberto, algumas vezes quase clandestino. Efetua-se por exemplo em novas formas de controle social como o projeto do corpo, que se impõe culturalmente – com e sem a aquiescência das mulheres – e frente ao qual outros tipos de projetos individuais ou coletivos se escurecem.
Na última década do século, falou-se muito em ‘‘crise’’: da família, da masculinidade, mesmo do feminismo. Quero então sugerir uma forma mais construtiva, menos apocalíptica de pensar nestas ‘‘crises’’: a ‘‘crise da família’’, que em parte representa a busca (e as dificuldades na construção) de formas de relação mais flexíveis e menos hierárquicas mas que também precisam do respaldo de uma sociedade que ainda parece resistir a sua redefinição; uma ‘‘crise da masculinidade’’, que poderia ser positivamente interpretada nos termos de uma necessidade dos homens de repensarem seu posicionamento frente a suas parceiras, colegas, filhas e filhos, e em relação a toda uma cultura de dominação. A ‘‘crise do feminismo’’ que como todo movimento social vai depender também da capacidade das novas gerações para dinamizá-lo, identificando os desafios para o novo século e reinventando a visão de transformação das suas pioneiras.
- Miriam Adelman é socióloga e professora do Departamento de Ciências Sociais da UFPR

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