O tempo que obscurece o passar da vida para muitos é injustiça, para outros, tal a firmeza de sua passagem terrena, não se ofusca apesar dos anos.
Assim ocorreu com Lauro Lima Lopes. A sua grande cultura, variada, multiforme, o seu conhecimento seguro e perfeito do direito, a lucidez do seu espírito, o seu sentimento e o seu culto pela Justiça, a sua consciência límpida, a sua independência moral fizeram de Lauro Lima Lopes um mestre e um guia.
Juiz reto e justo, não deixou de ser bom. É que não ignorava as palavras de Anatole France, de que as verdades descobertas pela inteligência permanecem estéreis; só o coração é capaz de animar seus sonhos. E temperou a justiça com a equidade.
Daí o seu renome de juiz austero e respeitado, que dinamizava o trabalho e dava aos jurisdicionados o exemplo, ‘‘sempre o mais eficaz dos preceitos’’, aquele que ‘‘persuade sem retórica, reduz sem porfia, convence sem debate’’; de juiz que se impõe pela seriedade no estudo das questões, pela moral irrepreensível, pela firmeza e rigor nos cumprimentos dos seus deveres funcionais, pela minúcia na apreciação das provas sujeitas ao seu exame. Digam-no as suas decisões estampadas nos repertórios de jurisprudência; digam-no os seus colegas e amigos, admiradores todos do seu talento e capacidade.
Foi através de sua conduta que ele tornou sereno e magnífico o ambiente em que, no dizer de Victor Hugo, vive aquela grande coisa humana que é a lei e aquela grande coisa divina que é a justiça.
Já se disse que entre os homens de talento, como os de alta posição social, na política ou na magistratura, porque se sentem, em regra, dominados pela vaidade e pelo orgulho, a bondade é mitológica.
Lauro Lima Lopes desmentiu esse conceito. O seu mágico sorriso de bondade, que ungia perenemente todos os seus atos e palavras, partia de um coração que desconhecia o mal, revelava o homem que não vive somente na terra, mas faz seus sentimentos, suas idéias, como a essência das flores, crescerem para a imensidade dos céus, a fim de que, mais próximos de Deus, se tornem mais belos e puros.
Os seus deveres de magistrado, de chefe de família e de cidadão foram crisol de revelação de seus atributos de dignidade humana e de virtudes cristãs. Durante a vida, principalmente durante quase 40 anos de magistratura, foi um exemplo de inteireza moral. Serviu, enfim, à Justiça, com aquela crença exigida por Couture: ‘‘Fé no Direito, como melhor instrumento para a convivência humana; na Justiça, como destino normal do Direito; na Paz, como substitutivo da Justiça; e, acima de tudo, fé na Liberdade, sem a qual não há Direito, nem Justiça, nem Paz’’.
A par de grande juiz, grande por seu saber e por seu fetichismo pela Justiça, pela cordura e pela presteza no exercício de seu ministério, Lauro Lima Lopes demonstrava excelsas virtudes de líder de classe. Por isso, após exercer, no biênio 1981-1982, o cargo de vice-presidente da Associação dos Magistrados do Paraná, foi eleito seu presidente.
A partir de sua gestão, que se iniciou em fevereiro de 1983 e findou em janeiro de 1985, a associação ganhou dinamismo até então desconhecido, verdadeiramente útil e proveitoso para a magistratura paranaense.
Nesse período criou a mútua, remodelou o Judicimed, que passou a prestar serviços de assistência médica e hospitalar apenas aos magistrados. Pregou a atualização e o aperfeiçoamento dos juízes do Paraná, sendo um dos idealizadores da Escola de Magistratura, à qual sempre prestigiou, fornecendo, inclusive, condições para a realização de diversos cursos.
Por ser um desses homens que se colocam na primeira linha de luta, para fazer com que a imagem da Justiça cresça sempre e possa navegar segura neste mundo, Lauro Lima Lopes foi eleito vice-presidente da Associação dos Magistrados Brasileiros, biênio 1984-1985, e nesse elevado cargo propugnou incansavelmente pela união e integração de todos os juízes brasileiros em torno da bandeira da Justiça e do prestígio do Poder Judiciário no Brasil, na defesa de seus direitos, garantias e prerrogativas. Postulou pela absoluta independência e autonomia da magistratura brasileira, para a salvaguarda de todos os direitos individuais do cidadão.
Ainda como vice-presidente de nossa Associação, presidiu a comissão organizadora do 9º Congresso dos Magistrados Brasileiros, realizado em Curitiba, e, como ninguém, com habilidade e firmeza, trabalhou incansavelmente, sendo o maior responsável pelo sucesso daquele evento.
Seu dinamismo e sua serena autoridade de líder foram postos em prova e os resultados alcançaram êxito surpreendente.
Se assim foi Lauro Lima Lopes como juiz e líder de classe, como pessoa foi verdadeiro milionário de relacionamento humano, granjeando por onde passou, pelas suas qualidades, verdadeira legião de amigos e admiradores. Extrovertido, bom por natureza e por essência, estava sempre dando algo de si a todos os que dele se aproximavam ou com ele conviviam, quando não uma palavra amiga, uma palavra de conforto, de compreensão, de estímulo. Realmente, só não se transformou em seu amigo quem não teve a ventura de conhecê-lo. A jovialidade do seu espírito definia com o sorriso, traço característico de sua personalidade.
Homem de fé, esposo e pai dedicado, sempre fez da família a base e o sustentáculo de seu viver. Dela podia dizer o que certa feita me disse de Heloísa, sua querida esposa: era seu farol, seu guia, seu arrimo e seu abrigo. Nela encontrou sempre a paz e o amor.
Se, como afirma Del Vechio, a própria deontologia jurídica se alicerça no espírito humano - compreendido este como suprema realidade da natureza, teleologicamente estruturada - e se na constituição intrínseca do homem acha-se a lei primeira do ser, do conhecer e do agir, podemos afirmar, com segurança, que Lauro Lima Lopes soube ser, na mais alta extensão do vocábulo e na plenitude de seu sentido; soube conhecer, com amor e com bondade; soube agir, autenticamente, como juiz, como homem e como amigo.
Esse o cidadão que homenageamos. Esse o juiz de que a magistratura do Paraná se viu prematuramente desfalcada e que deixou no Tribunal de Justiça um enorme vazio. Esse o ser humano que deixou no seio da família e no coração dos amigos uma lembrança e uma saudade para sempre.
A um magistrado desse estofo, a um cidadão armado dessas virtudes, a um espírito tão luminoso, a um coração tão bem formado como o de Lauro Lima Lopes, esta homenagem que lhe presta a Associação dos Magistrados do Paraná, denominando a ala da Colônia de Férias Desembargador Francisco de Paula Xavier Filho, que está sendo inaugurada, de ala ‘‘Desembargador Lauro Lima Lopes’’, é, sem qualquer sombra de dúvida, merecida, como todas as homenagens são merecidas.
- Tadeu Marino Loyola Costa é desembargador do Tribunal de Justiça do Paraná.

mockup