Londrina - Kelly Telles, de 31 anos, aos poucos, recupera-se das facadas que levou do ex-companheiro quando saía da Delegacia da Mulher de Londrina, há três dias. Em seu leito do hospital, além das marcas no corpo, ficam evidentes as cicatrizes da alma e a revolta da mente. "Fiz tudo o que fui orientada: denunciei, registrei boletim de ocorrência, saí de casa. Mas quase paguei com a minha vida", diz. O misto de dor e indignação foi o que motivou a mulher solicitar a seu advogado que entre com um pedido junto à Corregedoria do Tribunal de Justiça para averiguação de eventuais erros e falhas em seu processo. "Tudo isso poderia ter sido evitado se ele tivesse sido preso. Eu pedi ajuda."
Depois de um relacionamento de 15 anos e três filhos, a relação com o ex-companheiro, Davi Claro dos Reis, tornou-se insustentável. O comportamento rude e agressões já aconteciam desde o começo do relacionamento, mas, segundo ela, o "amor que tinha a fazia acreditar que ele poderia mudar". Não mudou e piorou quando ela decidiu voltar a estudar. "Ele dizia que eu tinha que trabalhar em vez de estudar. Depois de um tempo, começou a dizer que eu estaria tendo um caso." O pior, entretanto, estaria por vir. Cansada de ser mal tratada e, também, ver os filhos naquela situação, pediu a separação. "Nesse dia, apanhei muito. Meus filhos viram tudo", conta.
Ameaças constantes
O dia em questão foi dia 10 de outubro. De lá até o dia das facadas, a vida de Kelly e dos filhos viraria um transtorno. O primeiro boletim de ocorrência aconteceria em seguida, mas não intimidou o marido que, mesmo assim, tentaria matá-la pela primeira vez. Quando saía de seu emprego informal de fim de semana, Davi pegou-a pelo braço mediante ameaças de dar um tiro e colocou-a no carro. "Ele me batia muito e, além da arma debaixo do banco, tinha o canivete em mãos. Me dizia a todo momento que eu ia morrer. Em uma das lutas corporais, consegui pular pela janela do carro e fugir."
Apesar de negativas de outra realização de boletim de ocorrência na delegacia, conforme Kelly, outro documento foi lavrado. Juntamente, o advogado solicitou uma medida preventiva imediata que foi expedida pela juíza. Notificado formalmente, ela acreditou que Davi daria tranquilidade. Mais uma vez, a situação piorou; as ligações e ameaças eram constantes. "Foi quando ele invadiu minha casa e tentou me matar novamente." O filho de 15 anos conseguiu ajudar a mãe. Diante disso, um novo pedido de mais medidas protetivas foi reiterado pelo advogado, com o acréscimo de um pedido de prisão preventiva, visto que ele havia descumprido a notificação.
Sem temer qualquer decisão judicial, o agressor segue Kelly e joga o carro no intuito de matá-la. "Pedi ajuda mais uma vez no Ministério Público (MP) e um novo pedido de prisão preventiva foi feito", lembra. O MP entrou com o pedido no dia 13 de novembro. De acordo com o deferimento, no entanto, Davi não poderia chegar perto da escola dos filhos, da casa, e da mulher, mas a sua prisão não foi determinada. "Nessa época já estava escondida na casa de parentes. Ele não sabia onde eu estava com meus filhos." Novamente, foi orientada a fazer outro boletim de ocorrência. "Foi quando eu fui à Delegacia da Mulher para dar depoimento e levar meu filho como testemunha da agressão anterior."

O horror
Somente no período em que esteve na delegacia, Davi ligou inúmeras vezes em seu celular ameaçando-a. "Não sei como ele descobriu minha localização. O fato é que quando saí de lá, ele me atacou", recorda. O fato ocorreu a poucos metros da porta da delegacia, na rua, em frente ao filho. O menino conseguiu ajuda na delegacia, mas não houve tempo para salvar a mãe de novo. Kelly levou diversas facadas em todas as regiões dos braços e, também, nas costas, perfurando seu pulmão. O ex-marido foi contido em seguida, e está preso. Apesar de não correr risco de morte, perdeu quase todos os movimentos das mãos por conta dos golpes terem atingido os tendões. Ela segue internada no hospital, onde espera por uma cirurgia.

A revolta
"Eu só queria ter paz na minha vida. Acreditei que as medidas protetivas iriam ter efeito. Mas não, me senti abandonada com um papel na mão." Porém, mesmo com o desfecho trágico, não se arrepende de ter denunciado. "A única coisa que eu espero é que outras mulheres não passem pelo que passei. Eu tive a sorte de ainda estar viva. Mas a sombra dele e do horror que vivi vão me atormentar por toda a vida", declara.

mockup