BERKELEY, EUA (AE-IPS) - Na primavera boreal de 1990, quando eram grandes as esperanças de se pôr fim à ruptura de meio século entre Leste e Oeste, o analista político russo Andrei Fortunov previu que se o Ocidente quisesse aproveitar esta oportunidade para oferecer uma substancial assistência técnica e financeira à então União Soviética e ao resto da Europa Oriental
como fez depois da última guerra com a Europa e o Japão, então a Rússia poderia ter uma bem sucedida transição para uma sociedade democrática estável.
Mas Fortunov advertiu que se ao contrário o Ocidente decidisse humilhar a Rússia, deixá-la fora de seu clube de ricos e fazê-la passar fome, "então acabaremos nos unindo às nações párias do mundo - Irã, Iraque, Líbia, Síria, Coréia do Norte e à maioria da humanidade constituída pelos pobres do planeta - numa aliança dos despossuídos".
Foi uma preocupante e clarividente previsão.
Certamente deve-se fazer algo para pôr fim à "limpeza étnica" que está sendo levada em Kosovo sob a brutal direção de Slobodan Milosevic, apesar de que a seletiva indignação do Ocidente em relação a esta grande injustiça marca um forte contraste com sua inação em casos como em Ruanda e em muitos outros lugares, e com a cumplicidade americana em uma guerra de 30 anos ainda mais genocida para exterminar a cultura maia na Guatemala.
Mas o modo escolhido pela Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) para intervir em Kosovo suscita dúvidas quanto ao seu declarado motivo humanitário e aviva um latente ressentimento na maioria da humanidade.
Por outro lado, existe o risco de que esta intervenção da Otan sem um mandato possa ser ampliada posteriormente. O governo do presidente Bill Clinton está promovendo um novo "conceito estratégico" para a aliança que prevê sua utilização como uma força de assalto mundial capacitada a intervir, segundo palavras da secretária de Estado americana, Madeleine Albright, "desde o Oriente Próximo até a áfrica Central" em nome dos interesses e dos "valores" do Ocidente.
O conflito de Kosovo reflete a intensificação nos últimos anos de tendências de deterioração das relações entre a Rússia e o Ocidente. Mas também pode abrir um fosso entre o Leste e o Oeste ao longo de novas zonas sensíveis que ultrapassam a velha inimizade russo-americana.
O que está surgindo em resposta aos bombardeios da Otan é uma aliança antiocidental, não apenas das nações "párias" que há tempos perturbam a vida de Washington, mas também de três das mais populosas e poderosas nações do mundo: Rússia, China e Índia.
Apesar de décadas de hostilidade mútua entre Rússia e China, e de choques fronteiriços entre Índia e China, o ataque promovido pela Otan a uma nação soberana mesmo com as objeções da Rússia e da China cria preocupações iguais nos dois países, assim como na Índia, e uma aproximação entre eles ante a possibilidade de futuras intervenções ocidentais em disputas territoriais internas, como as referentes a Tibete, Taiwan, Chechênia e Caxemira.
Outras provocações, como a recente decisão dos Estados Unidos de instalar em Taiwan e Coréia do Sul uma defesa com mísseis balísticos e as acusações de Washington sobre espionagem nuclear chinesa, parecem estar minando as relações mútuas, avivando antigas suspeitas e levando a uma aproximação maior a Rússia, China e Índia.
Há vários indícios disto:
- Em 26 de março, o então primeiro-ministro da Índia A.B.Vajpayee anunciou que seu país estava considerando seriamente o estabelecimento de uma aliança militar estratégica com a Rússia e a China em resposta aos bombardeios da Otan. Cada um desses três países é uma potência nuclear e todos eles possuem exércitos de terra com numerosos efetivos.
- No começo de abril, a Rússia e a China advertiram os Estados Unidos que seus planos de construir e instalar um sistema de defesa com mísseis balísticos desencadeariam uma nova corrida armamentista mundial.
- Também no início de abril, o parlamento russo votou a favor da criação de uma "União Eslava" que seria formada pela Rússia
Bielo-Rússia e Sérvia. Enquanto a maioria dos analistas ocidentais atribui pouco importância a este pacto e o classificam de puramente simbólico, outros o consideram um prelúdio da reconstrução parcial da ex-União Soviética.
- Manipulada, levada à bancarrota e finalmente ignorada por uma Otan dirigida pelos Estados Unidos, a Organização das Nações Unidas parece estar percorrendo o caminho seguido nas vésperas da Segunda Guerra Mundial por uma impotente Liga das Nações, convertida apenas num palco de acusações entre as potências da época por não existir nenhuma instituição internacional capaz de mediar ou de limitar suas ações unilaterais.
- Existem sinais visíveis de uma aproximação entre Irã, Arábia Saudita, Egito, Síria e os emirados ricos em petróleo - e de um correspondente distanciamento dos Estados Unidos.
A preocupação com as potenciais forças contrárias aos Estados Unidos agita inclusive analistas de linha dura que integram as mais influentes correntes de pensamento do país, como Samuel Huntington, de Harvard, que adverte que Washington está atuando agora como "uma superpotência infame".
Apesar de até certo ponto reconhecerem a existência dessas tendências e ações, os políticos americanos rotineiramente as desejam por considerá-las posturas impotentes de nações que aproveitam de favores queixando-se dos Estados Unidos, que não têm nem o valor e nem a força para fazer valer suas reinvindicações.
Mas se os estrategistas da Otan cometeram monumentais erros de cálculo ao imaginar que Slobodan Milosevic se renderia depois que a primeira bomba fosse jogada em Belgrado, eles correm agora o perigo mortal de incorrer num erro cósmico ao acreditar que podem continuar tratando com arrogante desprezo as opiniões e os interesses da Rússia e da China e da maioria não ocidental da humanidade sem provocar no fim uma tremenda represália.
Poderia bem levar anos para que esta profunda e compartilhada hostilidade no Leste se transforme numa "contraforça" coerente
mas cada bomba lançada sobre Belgrado dá maior ímpeto ao que seria um desastre global. * Mark Sommer, ensaista e colunista, dirige o Mainstream Media Project, com sede nos Estados Unidos.

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