ARTIGO MÉDICO - Soro e infecção
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segunda-feira, 10 de dezembro de 2007
Thaís Guimarães (*) 
A cada ano, aproximadamente 15 milhões de pessoas são internadas nos cerca de 8 mil hospitais brasileiros, de acordo com registros do SUS (Sistema Único de Saúde). Alguns estudos brasileiros demonstram que 5 a 15% dos pacientes hospitalizados contraem algum tipo de infecção durante a internação.
As infecções hospitalares são complicações frequentes que ocorrem em pacientes internados e um grande problema de saúde pública porque influenciam a recuperação dos pacientes e o custo do tratamento. Estudos demonstram que elas aumentam o tempo de internação, favorecem o aparecimento de outras doenças, elevam a mortalidade e demandam medicamentos, exames e procedimentos que encarecem a assistência.
Os cateteres e dispositivos utilizados para administrar soro, sangue, nutrição parenteral ou medicamentos aos pacientes são algumas das principais vias de transmissão das infecções hospitalares, pois bactérias podem, através destes dispositivos, atingir a corrente sanguínea do paciente e causar infecções. É um problema que merece atenção, já que pelo menos 40% de todos os medicamentos prescritos em um hospital são injetáveis.
Atualmente, existem em uso duas formas de infundir soluções e medicamentos na veia dos pacientes: o sistema aberto - em geral um frasco rígido ou semi-rígido que necessita da entrada de ar para que a solução escoe - e o sistema fechado, um recipiente flexível que ''murcha'' gradativamente, sem necessidade de entrada de ar externo.
No Brasil, cerca de 80% das infusões venosas hospitalares são realizadas por sistema aberto. Esse processo é usado no mundo há 75 anos. Mas o alto risco de contaminação na instalação, preparo e administração tem levado muitos países a substituí-lo pelo sistema fechado. Foi o caso dos Estados Unidos que, após a ocorrência de surtos de infecção associados à contaminação pelo sistema aberto, optou pelo uso de sistema fechado. O mesmo fizeram vários países europeus. Apenas a América Latina, Ásia e Leste Europeu ainda usam sistema aberto.
Um estudo comparativo entre as taxas de infecções da corrente sanguínea registradas em hospitais da Argentina, Brasil, Índia, México, Itália e Turquia, que usam sistema aberto e os índices dos hospitais americanos revelou que naqueles países a ocorrência de infecções foi de 2 a 10 vezes maior do que nos Estados Unidos. Entre os fatores associados às taxas de infecção está a utilização do sistema aberto de infusão.
Mas essa situação está prestes a mudar no Brasil. A partir de março de 2008, todos os hospitais terão que substituir os recipientes de soro fisiológico e demais soluções injetáveis ministradas aos pacientes por sistema fechado. Esta determinação faz parte de uma resolução da Anvisa, a RDC 45/2003, que regulamenta as ''Boas Práticas de Utilização de Soluções Parenterais nos Serviços de Sa© úde''.
O propósito é aumentar a eficácia e segurança na administração desses produtos e reduzir a ocorrência de infecções hospitalares.
O impacto do sistema fechado na redução da infecção hospitalar foi avaliado em uma pesquisa realizada em São Paulo com 1.127 pacientes. O estudo acompanhou dois grupos na UTI: na primeira fase os pacientes mantiveram o uso de sistema aberto; na fase dois receberam apenas sistema fechado. O pesquisador constatou que a adoção do sistema fechado reduziu em 55% a ocorrência de infecções da corrente sanguínea.
(*) Thaís Guimarães é médica Infectologista da Comissão de Controle de Infecção Hospitalar do Instituto Central do HC-FMUSP e Coordenadora de Divulgação da Sociedade Brasileira de Infectologia.


